França: Governo sobrevive a moções de censura após crise por acordo UE-Mercosul
Governo francês sobrevive a moções de censura pós-acordo

O governo francês enfrentou e superou uma séria prova de força no Parlamento nesta quarta-feira, 14 de janeiro de 2026. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu sobreviveu a duas moções de censura, movidas em retaliação direta à aprovação do polêmico acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Votação reflete divisão política

As moções, no entanto, não alcançaram os votos necessários para derrubar o executivo. A proposta apresentada pelo partido de esquerda radical França Insubmissa obteve 256 votos a favor, ficando 32 votos aquém da maioria necessária. Já a moção submetida pelo Reagrupamento Nacional, de ultradireita, teve uma adesão ainda menor, com apenas 142 votos.

O fracasso das iniciativas é atribuído principalmente à falta de apoio dos partidos socialista e republicano, que optaram por não se juntar ao movimento de censura. No plenário, Lecornu reagiu com dureza aos opositores, acusando-os de sabotagem interna em um momento delicado para a política externa francesa.

O cerne da crise: o acordo UE-Mercosul

A crise tem como pano de fundo a iminente assinatura do tratado que criará a maior zona de livre-comércio do mundo, abrangendo um mercado de cerca de 700 milhões de consumidores. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve formalizar o acordo no próximo sábado, 17 de janeiro, com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Os opositores, no entanto, são ferrenhos. Agricultores franceses, apoiados por uma ampla faixa da classe política do país, temem o impacto das importações de produtos sul-americanos como carne, arroz, mel e soja. Em contrapartida, a Europa exportaria principalmente automóveis e máquinas.

Os partidos que apoiaram as moções de censura argumentam que o governo de Emmanuel Macron não esgotou todos os meios para impedir ou modificar o tratado. Eles citam a possibilidade de levar o tema ao Tribunal de Justiça da União Europeia ou até mesmo de ameaçar reduzir a contribuição financeira francesa ao bloco.

Macron enfraquecido e o cenário para 2027

A sobrevivência do governo não apaga o grave enfraquecimento político do presidente Emmanuel Macron e de sua ala centrista. O mandatário, que já viu cinco de seus primeiros-ministros indicados serem derrubados, navega em um cenário complexo às vésperas das eleições presidenciais de 2027.

Embora não possa concorrer a um terceiro mandato, seu sucessor enfrentará uma extrema-direita fortalecida. Pesquisa do Instituto Odoxa citada na notícia indica que, se a eleição fosse hoje, Jordan Bardella, principal candidato da ultradireita, venceria no primeiro turno com 36% das intenções de voto, derrotando candidatos de esquerda e da centro-direita.

O episódio das moções de censura deixa claro que a ratificação do acordo UE-Mercosul acirrou as tensões domésticas na França. O governo de Lecornu segue de pé, mas a crise política instalada promete influenciar profundamente os rumos do país nos próximos anos, com repercussões diretas no maior acordo comercial que o bloco europeu já firmou.