Do Golpe na Guatemala à Doutrina Donroe: Como a Intervenção de 1954 Ecoa nas Políticas de Trump
Golpe na Guatemala de 1954: Raízes da Doutrina Donroe de Trump

Do Golpe na Guatemala à Doutrina Donroe: Como a Intervenção de 1954 Ecoa nas Políticas de Trump

Em 1954, um evento crucial na história da América Latina estabeleceu um precedente que ainda ressoa nas relações internacionais contemporâneas. A United Fruit Company (UFC), uma poderosa multinacional americana com sede em Boston, Massachusetts, convenceu o presidente Dwight D. Eisenhower a derrubar o presidente democraticamente eleito da Guatemala, Jacobo Árbenz. As ondas de choque desse golpe de Estado reverberaram por décadas, e agora especialistas identificam nele as raízes da chamada "Doutrina Donroe", invocada pelo ex-presidente americano Donald Trump para justificar ações como a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

O Papel da United Fruit Company e a Guerra Fria

A UFC, apelidada de "polvo" devido à sua influência abrangente na Guatemala e países vizinhos, não tinha laços oficiais com o governo Eisenhower. No entanto, quando Árbenz propôs a desapropriação e redistribuição de terras não cultivadas em grandes fazendas para combater a pobreza crônica, a empresa iniciou um intenso lobby em Washington. Utilizando os temores da Guerra Fria, retratou a Guatemala como vulnerável à influência soviética, mesmo que Árbenz oferecesse uma compensação generosa – o dobro do valor pago pela UFC. Grace Livingstone, da Universidade de Cambridge, explica que a companhia não estava satisfeita com o valor, levando a uma campanha que culminou na intervenção.

Árbenz, ao assumir o poder em 1950, declarou sua intenção de transformar a Guatemala de uma sociedade feudal em uma economia capitalista moderna. Apesar disso, Eisenhower concordou com a intervenção, baseando-se na Doutrina Monroe. Originalmente uma declaração defensiva do século XIX para manter potências europeias fora do hemisfério ocidental, a doutrina foi reinterpretada pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904 como justificativa para intervenções militares. Essa lógica foi adotada por Trump em sua Doutrina Donroe, aplicada a Venezuela, Groenlândia e Irã.

Táticas Semelhantes: Da Guatemala à Venezuela

As semelhanças entre o golpe de 1954 e as ações recentes são marcantes. Na Guatemala, a CIA lançou folhetos e operou uma rádio clandestina, "La Voz de la Liberación", que transmitia em espanhol e simulava estar dentro do país, enquanto na realidade emitia sinais de fora das fronteiras. A agência bombardeou locais estratégicos e reproduziu sons de bombas na rádio para desmoralizar a população e o exército. Livingstone destaca que, assim como na Venezuela, houve uma concentração militar em torno da Guatemala, com envio de submarinos e interceptação de navios.

No século XXI, Trump aplicou táticas similares de pressão psicológica. Na Groenlândia, ameaçou anexação e medidas econômicas punitivas via redes sociais. No Irã, postou sobre uma "armada massiva" pronta para ação rápida e violenta. Jon Lee Anderson, da The New Yorker, observa que a captura de Maduro seguiu um padrão de humilhação pública, reminiscente do tratamento dado a Árbenz, que foi revistado publicamente antes do exílio.

Consequências e Ameaças de Longo Prazo

O golpe na Guatemala teve consequências duradouras. Após a queda de Árbenz, o país enfrentou décadas de violência e instabilidade, com governos autoritários e cartéis de drogas explorando o vazio de poder. Isso gerou uma ameaça de longo prazo aos interesses americanos, maior do que as justificativas originais de reforma agrária ou temores comunistas. Livingstone ressalta que os Estados Unidos intervieram na América Latina mais de 80 vezes desde a proclamação da Doutrina Monroe, demonstrando uma disposição de derrubar governos democraticamente eleitos.

Stewart Patrick, da Fundação Carnegie, argumenta que a "lógica de esferas" de Trump, centrada na proteção de comércio, território e recursos, é uma consequência de sua aversão ao globalismo. Na Guatemala dos anos 1950, a questão era ideológica e envolvia bananas; hoje, na Venezuela e no Irã, gira em torno do petróleo e da rivalidade com a China. A Groenlândia também é visada por seus recursos preciosos.

Analistas como Mike Crawley, da CBC News, destacam que a postura de Trump se baseia em política visual, usando redes sociais para reafirmar dominância. Enquanto apoiadores das intervenções argumentam que apenas ditadores têm algo a temer, a história da Guatemala mostra que até governos eleitos democraticamente podem ser alvos, levantando preocupações sobre o futuro das relações internacionais e a estabilidade regional.