Venezuela pós-Maduro: incerteza, pressão de Trump e risco de caos
Futuro da Venezuela: transição lenta sob pressão externa

A declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descartando a realização de eleições na Venezuela em um prazo de 30 dias, lançou uma nova camada de incerteza sobre o futuro político do país. O cenário, já caótico, ficou ainda mais complexo após a queda de Nicolás Maduro e a posse interina da vice-presidente Delcy Rodríguez, respaldada pelas Forças Armadas e pela Assembleia Nacional.

O poder do veto e a sombra de Washington

Segundo análise do professor de Relações Internacionais do Ibmec, Leonardo Paz, a pergunta sobre quem manda em Caracas atualmente tem uma resposta clara: quem tem poder de veto. E esse poder, neste momento, não se limita às fronteiras venezuelanas. A operação que levou à queda de Maduro foi "brutalmente eficiente" e colocou os Estados Unidos no centro do processo decisório.

Delcy Rodríguez, agora no comando interino, tornou-se o novo foco da pressão americana. "Ela sabe que pode ser o próximo alvo se não entregar algum tipo de acomodação aos interesses de Washington", afirma o especialista. A posição interina resolve uma questão constitucional formal, mas o cerne do problema é político, marcado por uma leitura ambígua sobre a necessidade de convocar eleições imediatamente.

Por que Trump freia as eleições?

A resistência de Trump a um pleito rápido não é um capricho, mas uma estratégia calculada para evitar uma catástrofe maior. Uma transição acelerada poderia produzir o oposto da estabilidade desejada. Uma eleição em poucas semanas tem o potencial de detonar uma crise de violência interna de grandes proporções.

O motivo central desse risco está no legado do chavismo. Ao longo dos anos, milhares de civis foram armados e treinados. Esses grupos, embora incapazes de enfrentar uma força militar estrangeira, têm plenas condições de gerar caos urbano, confrontos localizados e uma espiral de instabilidade difícil de controlar. A prioridade, portanto, é uma transição gradual que minimize os explosivos.

Chavismo vivo e militares pragmáticos

Um dos pontos mais importantes destacados pela análise é que a saída de Maduro não significou o fim do chavismo ou do autoritarismo no país. O núcleo do poder chavista permanece intacto, com uma parte significativa da elite política e administrativa ainda em seus postos. Isso desenha um futuro onde qualquer transição será, necessariamente, negociada e lenta.

Nesse tabuleiro, as Forças Armadas venezuelanas aparecem como atores pragmáticos. Segundo Leonardo Paz, elas provavelmente aceitariam uma mudança de regime — desde que haja garantias concretas. Itens como anistia, preservação de privilégios e segurança pessoal pesam mais do que qualquer fidelidade ideológica. "Eles não vão comprar uma briga direta com os Estados Unidos", resume o professor.

O espectro da guerra civil e o caminho à frente

Embora um conflito em larga escala seja considerado improvável, o risco de confrontos internos, sabotagens e violência localizada não está descartado. É justamente esse temor que faz de uma transição gradual uma opção vista como menos perigosa do que uma ruptura abrupta e descontrolada.

No curto prazo, a palavra de ordem é incerteza. Eleições não estão totalmente descartadas, mas também não são iminentes. O tempo se tornou um ativo estratégico valioso, disputado por atores internos e por Washington. A Venezuela pós-Maduro está longe da normalidade e, contra as expectativas de muitos, o relógio da democracia parece avançar em câmera lenta, sob forte pressão externa e com um chavismo que ainda pulsa.