Os Estados Unidos vivem uma intensa guerra política interna em torno do redesenho dos mapas eleitorais estaduais, visando as eleições legislativas marcadas para 3 de novembro. O objetivo central é fortalecer ou enfraquecer o governo do presidente Donald Trump, que busca ampliar a vantagem republicana no Congresso.
Contexto das eleições de meio de mandato
Diferentemente do Brasil, o Congresso dos Estados Unidos é renovado parcialmente a cada dois anos. Quando ocorrem no meio do mandato presidencial, essas eleições são chamadas de midterms — ou eleições de meio de mandato. Os deputados norte-americanos têm mandatos de dois anos, enquanto os senadores, de seis.
Com isso, a cada dois anos, o país renova toda a Câmara dos Representantes (435 cadeiras) e cerca de um terço do Senado (35 das 100 cadeiras em 2026). Nas eleições de 2024, o Partido Republicano garantiu maioria nas duas Casas, mas por margem pequena. O resultado deu base para Trump avançar com sua agenda no Congresso, mas a maioria apertada limitou essa força e expôs divisões internas no partido.
Estratégia de redesenho dos distritos
Para tentar ampliar essa vantagem, Trump sugeriu que republicanos apoiassem o redesenho dos distritos eleitorais nos estados. A ideia é aumentar as chances de eleger mais aliados para a Câmara. Nos Estados Unidos, deputados são eleitos por distrito — áreas dentro de cada estado que podem incluir cidades inteiras ou apenas parte delas. O 11º distrito de Nova York, por exemplo, reúne apenas alguns bairros da cidade de Nova York.
Esses distritos são desenhados com base na população, devendo cada um ter um número parecido de habitantes. Isso significa que cada deputado representa uma fatia semelhante da população dentro do estado.
A ofensiva de Trump começa pelo Texas
A ofensiva de Trump começou pelo Texas, estado com o segundo maior número de deputados do país e um reduto importante do Partido Republicano. A estratégia foi redesenhar os distritos eleitorais para criar um mapa mais favorável aos republicanos. A proposta foi aprovada no estado em agosto de 2025 e já está em vigor. Com o novo desenho, a expectativa é que o mapa favoreça os republicanos ao redistribuir eleitores e reduzir áreas onde os democratas tinham vantagem. Na prática, isso pode render ao partido até cinco cadeiras a mais do que nas eleições de 2024.
Reação democrata na Califórnia
A estratégia, no entanto, gerou reação. Três meses depois, a Califórnia decidiu redesenhar o próprio mapa para favorecer os democratas. Com isso, é esperado que a oposição tome cinco vagas que, atualmente, são dos republicanos. E essa briga não parou por aí.
Guerra nos estados
Os redesenhos dos mapas eleitorais do Texas e da Califórnia provocaram questionamentos na Justiça, mas acabaram validados pela Suprema Corte. Ao mesmo tempo, a disputa se espalhou por outros estados. Veja a seguir.
Missouri
O governador republicano Mike Kehoe sancionou, em setembro, um novo mapa que elimina um distrito atualmente controlado por democratas. A mudança favorece os republicanos, que podem ganhar uma cadeira na Câmara. Opositores ainda tentam levar o caso a referendo popular e também acionaram a Justiça. Por enquanto, o mapa está em vigor.
Ohio
Uma regra estadual obrigou a criação de um novo mapa para 2026, já que o anterior havia sido aprovado sem apoio democrata. A comissão de redistritamento, com cinco republicanos e dois democratas, aprovou por unanimidade um novo desenho em outubro. A proposta aumenta as chances de os republicanos conquistarem até duas cadeiras hoje nas mãos dos democratas.
Carolina do Norte
Em outubro, a maioria republicana no Legislativo aprovou um novo mapa que pode garantir ao partido uma cadeira controlada atualmente por democratas.
Utah
Um juiz estadual anulou um mapa elaborado por republicanos por considerá-lo ilegal. A Justiça determinou a adoção de um novo desenho feito por um grupo independente, que pode transferir uma das quatro cadeiras hoje republicanas para democratas.
Virgínia
Eleitores aprovaram na terça-feira (21) um novo mapa elaborado por democratas, com potencial de virar até quatro cadeiras. Republicanos contestaram o processo e, dois dias depois, um juiz estadual anulou a votação. O caso segue em disputa na Justiça.
Flórida
O governador Ron DeSantis convocou uma sessão legislativa especial para discutir um novo mapa. A proposta pode render até cinco cadeiras a mais para os republicanos. No entanto, o plano enfrenta barreiras legais, já que a Constituição estadual proíbe mapas feitos para favorecer partidos.
Outros casos
Indiana e Kansas tentaram avançar com mudanças favoráveis aos republicanos, mas não conseguiram aprová-las. Em Maryland, um projeto apoiado por democratas travou por falta de apoio no Senado estadual. Em Nova York, a Justiça havia ordenado o redesenho de um distrito republicano, o que poderia favorecer um democrata em novembro. A decisão, porém, foi suspensa pela Suprema Corte.
Cenário atual das eleições
Pesquisas recentes indicam que o Partido Republicano corre o risco de perder o controle da Câmara nas eleições de novembro. No momento, Trump enfrenta queda na aprovação, provocada pela situação econômica do país e pela guerra contra o Irã. Veja a seguir alguns cenários.
Center for Politics da Universidade da Virgínia
O centro acadêmico acompanha eleições nos EUA e reúne projeções com base em pesquisas. Os dados mais recentes indicam vantagem democrata na Câmara e manutenção da maioria republicana no Senado.
270toWin
O site compilou diferentes levantamentos eleitorais e simulou cenários de distribuição de cadeiras. A projeção atual aponta vantagem democrata na Câmara.
Race to the WH
A plataforma do jornalista político Logan Phillips projeta os resultados eleitorais com base em uma média de pesquisas. O cenário mais recente é favorável aos democratas, com maior chance de retomada da Câmara e disputa mais equilibrada no Senado. Segundo o levantamento, atualmente, os democratas têm 79% de chance de tomar o controle da Câmara. No Senado, os republicanos têm 54% de probabilidade de manter a maioria — vantagem que vem caindo nos últimos dias.



