EUA perdem status histórico de democracia liberal após cinco décadas
Pela primeira vez em cinquenta anos, os Estados Unidos deixaram de ser classificados como uma "democracia liberal" - o modelo mais avançado dessa forma de governo - e passaram a ser considerados uma "democracia eleitoral" pelo V-Dem (Variedades da Democracia), instituto vinculado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. O relatório referente a 2025, divulgado nesta terça-feira (17), destaca o rápido declínio da democracia americana durante o governo de Donald Trump, marcando uma mudança histórica no panorama democrático global.
Brasil supera Estados Unidos em índice de democracia liberal
Em uma virada significativa, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos no índice de "democracia liberal", que avalia a qualidade democrática considerando tanto aspectos eleitorais - como eleições livres, justas e competitivas - quanto aspectos liberais - incluindo a independência entre os poderes e o respeito às liberdades civis. O V-Dem, que conta com mais de 4.000 especialistas em todo o mundo para produzir sua extensa base de dados, classifica os países em quatro categorias: desde "autocracia fechada" até "democracia liberal".
No relatório mais recente, Brasil e Estados Unidos compartilham o status de "democracia eleitoral", onde as eleições são consideradas livres e justas, o voto é universal, e há garantias de liberdade de expressão e associação. Contudo, alguns elementos fundamentais das democracias liberais - como o sistema de pesos e contrapesos e a submissão igualitária dos cidadãos às leis - não são plenamente respeitados em ambos os países.
Queda dramática nos índices americanos e avanço brasileiro
O índice de "democracia liberal" dos Estados Unidos despencou de 0,75 em 2024 para 0,57 em 2025, numa escala onde valores mais próximos de um indicam maior qualidade democrática. Em comparação, a Dinamarca, líder do ranking, mantém um índice de 0,88, enquanto o Brasil alcançou 0,70. Essa queda coloca os Estados Unidos em um patamar similar ao do início dos anos 1960, período marcado pelo movimento pelos direitos civis que buscava abolir a discriminação e segregação racial institucionalizadas.
O relatório dedica um capítulo inteiro para analisar a deterioração da democracia americana sob Trump, descrevendo uma "concentração rápida e agressiva de poderes" na Presidência. "A velocidade com que a democracia americana está sendo desmantelada não tem precedentes na história moderna", afirma o documento. O professor Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, destacou em nota oficial que o governo atual vem enfraquecendo os freios e contrapesos institucionais, politizando o serviço público e os órgãos de fiscalização, intimidando o Poder Judiciário e atacando a imprensa, a academia, as liberdades civis e as vozes dissidentes.
Brasil como exemplo de reversão democrática
O instituto ressalta que o Brasil conseguiu reverter seu processo mais recente de autocratização com a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro para o presidente Lula em 2022. Segundo o relatório, a autocratização brasileira teve início com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e se acelerou após a eleição do populista de direita Jair Bolsonaro em 2018, seguida por ataques à mídia e tentativas de minar as eleições, o Legislativo e o Judiciário. "A reviravolta ocorreu quando Luiz Inácio 'Lula' da Silva, apoiado por uma coalizão de nove partidos, venceu as eleições de 2022", destaca o documento.
No entanto, o V-Dem alerta que a sociedade brasileira "continua profundamente polarizada" e que as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro democrático do país, observando que Bolsonaro está impedido de exercer cargos públicos após condenação por abuso de poder e tentativa de golpe de Estado.
Panorama global preocupante para as democracias
Em nível mundial, o instituto afirma que o nível atual da democracia é comparável ao de 1978, com quase todos os ganhos da terceira onda de democratização - iniciada em Portugal em 1974 - praticamente perdidos. A comparação com índices de vinte anos atrás revela o impacto da terceira onda de autocratização que avança globalmente:
- Em 2005, 27 países estavam se democratizando - hoje são apenas 18
- Naquele mesmo ano, 12 países estavam em processo de autocratização, contra 44 em 2025
- A qualidade das eleições melhorava em 31 países, enquanto hoje melhora apenas em sete
- O maior impacto ocorreu na liberdade de expressão: em 2000, 52 países evoluíam nesse quesito; em 2025, 44 estão em declínio
O novo relatório identifica dez novos países em processo de autocratização, incluindo além dos Estados Unidos, nações como Itália, Reino Unido, Croácia, Eslováquia e Eslovênia. O V-Dem aponta três padrões principais nesta onda de autocratização: o declínio democrático em democracias tradicionalmente estáveis; reversões significativas e colapsos em países que se democratizaram no final do século 20 e início do século 21; e o aprofundamento da autocracia em Estados já autocráticos.
Lindberg enfatizou que as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, programadas para novembro, representarão um teste decisivo para a democracia americana. "Se os indicadores eleitorais também piorarem, os EUA cairão ainda mais", alertou o diretor do instituto, lembrando que as primeiras eleições após episódios de autocratização costumam ser fator crucial para a recuperação democrática.



