Portugal decide em meio a tempestades: Seguro e Ventura disputam presidência
Eleições em Portugal: Seguro e Ventura no segundo turno

Portugal em clima de tensão eleitoral e tempestades

O cenário político português vive um momento decisivo neste domingo, quando os eleitores comparecem às urnas para o segundo turno das eleições presidenciais. A disputa coloca frente a frente António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista, e André Ventura, líder do partido de direita radical Chega. A votação ocorre em um contexto particularmente dramático, com o país em estado de calamidade pública devido a fortes tempestades que já causaram mais de dez mortes e danos significativos, especialmente na região central.

O crescimento acelerado da direita radical

Embora as pesquisas apontem para uma vantagem consistente de Seguro, com cerca de 67,4% das intenções de voto contra 32,6% para Ventura, a grande incógnita é o patamar final que o candidato do Chega poderá alcançar. Cientistas políticos destacam que, se ultrapassar os 32%, Ventura terá argumentos sólidos para se apresentar como a principal força da direita em Portugal, superando inclusive a coligação governista de centro-direita.

O crescimento do Chega tem sido notavelmente rápido no cenário político português. De apenas 1,3% dos votos nas legislativas de 2019, o partido saltou para impressionantes 22,8% em 2025, consolidando-se como a segunda maior força no Parlamento com 60 cadeiras. Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, observa que, enquanto em outros países europeus o avanço da direita radical foi gradual após a crise de 2008, em Portugal esse movimento ganhou velocidade surpreendente.

Estratégias de campanha e alianças políticas

Ventura conduziu sua campanha com um discurso marcadamente anti-imigração, além de críticas contundentes a grupos minoritários e às elites políticas tradicionais. Sua proposta de prioridade para portugueses em serviços públicos como hospitais e escolas sintetiza parte essencial de sua plataforma. A campanha incluiu outdoors polêmicos com mensagens dirigidas a imigrantes, algumas das quais tiveram que ser retiradas por decisão judicial.

Do outro lado, Seguro tem recebido um apoio incomum para um candidato socialista: figuras proeminentes da direita e centro-direita portuguesa declararam publicamente seu respaldo à sua candidatura. Entre eles estão:

  • Aníbal Cavaco Silva, ex-presidente e ex-primeiro-ministro
  • Carlos Moedas, prefeito de Lisboa pelo PSD
  • Pedro Duarte, prefeito do Porto também pelo PSD
  • Paulo Portas, ex-líder do CDS-PP

Analistas apontam que esse apoio conservador a Seguro se explica por três fatores principais:

  1. A tentativa de criar um cordão sanitário para conter o avanço da direita radical
  2. A percepção de Seguro como figura centrista e moderada, mesmo sendo ex-líder socialista
  3. Considerações institucionais sobre a estabilidade do governo minoritário de centro-direita

Impacto nas políticas migratórias e comunidade brasileira

Embora o discurso do Chega tenha evitado ataques diretos a brasileiros - que formam a maior comunidade de imigrantes em Portugal com mais de 500 mil pessoas - a pressão do partido já resultou em mudanças significativas nas políticas migratórias. No ano passado, a coligação governista aliou-se ao Chega para aprovar alterações na Lei de Estrangeiros que:

  • Restringiram o visto de trabalho a profissionais considerados qualificados
  • Eliminaram a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem como turistas
  • Endureceram as regras de reagrupamento familiar

Além disso, o Parlamento aprovou uma nova Lei da Nacionalidade que ampliou de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para pedido de nacionalidade portuguesa, embora essa proposta ainda não tenha entrado em vigor completamente.

Contexto europeu e fatores econômicos

O avanço do Chega em Portugal reflete uma tendência mais ampla na Europa, onde partidos de direita radical têm ganhado espaço significativo. A politização do tema da imigração aparece como um dos principais motores desse crescimento, especialmente considerando que o número de estrangeiros em Portugal saltou de 592 mil em 2019 para mais de 1,5 milhão atualmente.

Curiosamente, esse crescimento ocorre em um momento relativamente favorável para a economia portuguesa. Nos últimos cinco anos, o PIB do país cresceu em média 3,8% ao ano, acima dos 2,6% da União Europeia como um todo. A inflação está controlada, o desemprego é o mais baixo em décadas e o salário médio sobe 3% acima da inflação. No entanto, como observa a economista Susana Peralta, da Nova School of Business and Economics, esse avanço não chega a todos.

Problemas como gentrificação, alta dos preços da habitação e aluguéis, além da percepção de queda na qualidade de vida para certos setores da população, alimentam o sentimento de que alguns grupos estão sendo deixados para trás - terreno fértil para o discurso da direita radical.

Desafios institucionais e o futuro político

O resultado das eleições presidenciais terá implicações importantes para a governabilidade em Portugal. No regime semipresidencialista português, o presidente detém poderes significativos, incluindo a capacidade de vetar leis, dar posse ao primeiro-ministro e, em situações extremas, dissolver o Parlamento. Um governo minoritário como o atual, liderado pelo PSD, torna-se particularmente vulnerável sem um presidente que possa ajudar a garantir estabilidade.

As tempestades que atingem Portugal também representam um fator imprevisível para o pleito. Ventura chegou a pedir o adiamento das eleições, mas autoridades eleitorais afastaram essa possibilidade, admitindo apenas adiamentos pontuais em alguns municípios mais afetados. O comparecimento às urnas pode ser significativamente afetado pelas condições climáticas adversas.

Independentemente do resultado deste domingo, uma coisa parece clara: o Chega já alterou profundamente o cenário político português, e seu crescimento reflete questões mais amplas que desafiam não apenas Portugal, mas toda a Europa. Como observa a cientista política Marina Costa Lobo, muitas das preocupações que levam eleitores a votarem na direita radical são legítimas, embora as soluções oferecidas por esses movimentos frequentemente simplifiquem problemas complexos.