A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, fez uma declaração contundente nesta terça-feira, 6 de agosto. Em pronunciamento televisionado, ela afirmou que nenhum "agente externo" governa o país, reagindo diretamente às alegações feitas após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro.
Uma Transição Sob Pressão
Rodríguez, que era vice de Maduro, assumiu formalmente a liderança interina no Parlamento na tarde de segunda-feira, 5 de agosto. Sua posse ocorreu em um momento de extrema tensão, marcado pela prisão de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores no sábado, 3 de agosto. Eles foram detidos em uma operação militar dos Estados Unidos sob acusações de narcotráfico e já estão em uma prisão em Nova York.
O juramento de Delcy Rodríguez foi feito a seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, e contou com a presença do filho de Maduro, o deputado Nicolás Maduro Guerra. A cerimônia foi encarada como uma demonstração de apoio da família do ditador deposto ao novo governo e uma tentativa do chavismo de mostrar unidade em meio à crise.
Desafios Internos e Externos
A nova líder venezuelana herdou uma situação complexa. Internamente, precisa reorganizar o chavismo sem a sua principal figura e gerenciar a correlação de forças dentro do partido, onde figuras-chave como Diosdado Cabello (Interior) e Vladimir Padrino (Defesa) permanecem em seus postos.
Externamente, a pressão vem diretamente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele já havia afirmado controlar o país e agora alertou que Rodríguez pode sofrer consequências graves se não atender às expectativas norte-americanas. Antes de assumir, a chavista já havia feito um apelo público a Trump, pedindo por uma relação mais equilibrada entre as nações.
Simbolismo e Tensão nos Primeiros Dias
Em busca de legitimidade simbólica, uma das primeiras ações de Delcy Rodríguez como líder interina foi uma visita ao túmulo de Hugo Chávez. Ela depositou flores no monumento "A Flor dos Quatro Elementos" e reafirmou seu compromisso com a autodeterminação venezuelana.
No entanto, os sinais de instabilidade não demoraram a aparecer. Na mesma semana da posse, houve relatos de tiros perto do palácio presidencial, embora as autoridades tenham classificado o episódio como um incidente envolvendo um drone não autorizado.
Paralelamente, em Nova York, Nicolás Maduro se declarou inocente das acusações durante uma audiência, disse se considerar um prisioneiro de guerra e reafirmou que é o legítimo presidente da Venezuela.
Contexto Econômico e Político
Do ponto de vista econômico, espera-se que o novo cenário facilite a entrada de empresas norte-americanas nos setores de petróleo e mineração da Venezuela. Também cresce a expectativa de que políticos presos possam ser liberados para facilitar negociações de transição.
O início dos trabalhos legislativos na Assembleia Nacional, dominada pelo PSUV, foi marcado por homenagens a Maduro e Cilia Flores. O deputado Pedro Carreño destacou o "fervor patriótico" do ato, mas lamentou a cadeira vazia de Flores, que, segundo ele, "não compareceu por ter sido sequestrada".
A posse do Parlamento também foi marcada por um episódio preocupante para a liberdade de imprensa: cerca de 16 jornalistas foram detidos, de acordo com informações do sindicato da categoria repassadas à AFP. A maioria deles teria sido liberada posteriormente.
Agora, Delcy Rodríguez caminha sobre um terreno delicado, tentando equilibrar as demandas internas do chavismo, a feroz pressão externa de Washington e as expectativas de uma população que vive uma profunda crise há anos. O futuro da Venezuela permanece incerto, com sua nova líder no centro de uma das transições de poder mais dramáticas da história recente do continente.