Cuba à beira do colapso: o dilema de Díaz-Canel entre abertura e caos social
Cuba à beira do colapso: dilema de Díaz-Canel entre abertura e caos

Cuba à beira do colapso: o dilema de Díaz-Canel entre abertura e caos social

O sistema soviético, que sobreviveu de forma bizarra apenas numa versão tropical em Cuba, demonstrou uma realidade incontestável: a menor mudança num tijolo do imenso edifício autoritário construído em nome do povo implicou sua derrocada rápida e completa. Esse é o dilema vivido agora por Miguel Díaz-Canel e seus companheiros no Partido Comunista Cubano.

Entre duas opções desastrosas

Ceder às exigências de abertura feitas por Donald Trump – ainda desconhecidas em detalhes, mas facilmente presumíveis dado o antecedente venezuelano – ou ver o país numa situação ainda mais crítica, onde explode nas ruas o desespero da população sem luz elétrica e sem praticamente todos os outros meios de subsistência. Em ambas as hipóteses, Díaz-Canel e sua turma se dão mal.

Talvez exista uma estreita brecha, criada pelo ineditismo da experiência que os Estados Unidos estão conduzindo na Venezuela, com uma mudança de regime em câmara lenta, onde o aparato e o discurso chavistas foram mantidos, mas as ordens dos americanos estão sendo seguidas, começando pela abertura em áreas importantes como a do petróleo e a próxima anistia aos presos políticos.

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A realidade paralela do regime cubano

Trump foi extremamente otimista ao dizer que "estamos começando a chegar a um acordo", com o comentário ferino de que Cuba é um país falido que "nem sequer tem combustível para os aviões decolarem". O negociador pelo lado americano é Marco Rubio, o secretário de Estado que também conduz as operações na Venezuela.

Quem fala por Cuba? Correu o boato que um dos principais interlocutores seria Alejandro Castro, filho de Raúl Castro, o dinossauro revolucionário ainda vivo, aos 94 anos. Seria uma ironia tremenda: o filho de cubanos emigrados para os Estados Unidos que deram um duro danado, com sua mãe trabalhando como arrumadeira de hotel, e o privilegiado herdeiro da dinastia comunista.

Em vários sentidos, Marco Rubio e Alejandro Castro personificam o ápice do que pode ser conseguido numa democracia capitalista e numa ditadura comunista. Precisa dizer qual é o infinitamente melhor?

A proximidade geográfica que complica

A proximidade geográfica de Cuba com os Estados Unidos e a quantidade de cubanos e descendentes que se jogaram ao mar para ter uma vida melhor tornam as negociações mais complexas. Existe uma lei americana especificando em detalhes as condições em que o embargo pode ser contornado.

Como no caso da Venezuela, o governo Trump não quer ver uma situação terminal em que mais pessoas desesperadas tentem entrar nos Estados Unidos. Mas Cuba está numa situação muito pior. Sem o petróleo da Venezuela, que também era revendido no mercado para gerar divisas fortes, o país avança rapidamente para a falência total.

De tanto que o regime e seus simpatizantes atribuíam todos os males da ilha ao embargo americano, agora estão vendo o que realmente um boicote produz. A falência, obviamente, não vem de hoje; o bloqueio ao petróleo apenas a acelerou.

A encenação da realidade paralela

Faz parte da encenação do regime fazer de conta que as coisas não são tão ruins, uma prestidigitação em que Fidel Castro era mestre. Díaz-Canel parece um sujeito menos dado às palhaçadas castristas, mas segue o mesmo roteiro de realidade paralela.

Por exemplo, no começo do mês fez um discurso em que falou de mudança, mas apenas em áreas como a transformação digital e a inteligência artificial. Atenção: Cuba não tem sequer luz elétrica no momento, muito menos internet.

Quando o embargo do petróleo começou, Cuba já estava vivendo a pior crise econômica dos 67 anos de regime revolucionário. A crise acelerou quando a União Soviética desmoronou e o regime perdeu a mesada. Viver da bondade de amigos virou hábito e a Venezuela chavista ofereceu a outra tábua de salvação.

O mito da revolução e a autopreservação

O comunismo nunca produziu uma economia sustentável, mas foi bom em autopreservação. Resumiu assim a trajetória cubana o comentarista Christopher Sabatini, pesquisador da Chatam House:

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  • "Ao contrário do caótico e corrupto governo da Venezuela, o Estado cubano viveu mais de sessenta anos de comando ininterrupto sob Fidel Castro e depois seu irmão Raúl, permitindo ao Partido Comunista dominar e formatar o governo"
  • "Funcionários públicos e as Forças Armadas Revolucionárias foram doutrinados no mito da revolução e têm medo de mudança"
  • "O fato de que as FAR sejam donas de vastas áreas da economia – incluindo turismo e serviços financeiros, integrados em grandes holdings – ajuda a garantir a sua lealdade"

Sabatini também defende a teoria, ouvida diretamente de um alto comandante militar americano, de que o maior risco em Cuba é de mergulho no caos, com explosão nas ruas – e um grande número de refugiados arriscando tudo para chegar aos Estados Unidos.

A iminência da mudança forçada

Como está, a situação vai ficando rapidamente insustentável e o regime cubano, com tanta importância simbólica para as esquerdas, especialmente latino-americanas, vai ter de fazer aquilo a que sempre resistiu: mudar. Mesmo a mais controlada abertura terá uma importância enorme devido ao papel desproporcional que Cuba, por sua trajetória política, projeta.

Só para lembrar, a ilha tem um PIB de 100 bilhões de dólares, um oitavo da fortuna de Elon Musk. Um acordo tem de sair logo, sob o risco de que a população faminta enfrente o que de melhor o regime cubano criou, a repressão política.

Miguel Díaz-Canel pode perder o poder e o hífen, um adendo pernóstico. E não vai ser o único a sofrer as consequências dessa crise histórica que coloca Cuba num precipício entre abertura política e colapso social total.