Tucker Carlson critica guerra dos EUA e Israel contra o Irã e expõe divisões na direita americana
O ex-apresentador da rede de televisão Fox News, Tucker Carlson, manifestou críticas contundentes à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em um vídeo postado no YouTube que foi visualizado mais de dois milhões de vezes em menos de 48 horas após o início dos ataques mais recentes. A opinião não vem de um ativista anti-Trump, mas sim de uma das vozes mais influentes da direita americana, revelando fissuras significativas na coalizão que apoia o presidente Donald Trump.
"Esta guerra é de Israel, não é dos Estados Unidos"
No monólogo amplamente compartilhado, Carlson foi direto ao ponto: "Esta guerra é de Israel, não é dos Estados Unidos". O jornalista, que é apoiador de longa data de Donald Trump e teria se encontrado com o presidente várias vezes no último mês tentando dissuadi-lo da ação militar, argumentou que "os países perdem muita liberdade durante a guerra, desce um espírito de violência e as pessoas mudam rapidamente".
Carlson foi ainda mais enfático em seu conselho: "Saiam imediatamente. Simples assim. Claro, também é incrivelmente complicado, mas a primeira medida é decidir que estamos saindo". Sua posição contrasta com a de muitos apoiadores fervorosos de Trump que apoiam a ação militar atual, mas reflete uma divisão crescente no Partido Republicano.
Divisões na coalizão de Trump
Pesquisas indicam que aproximadamente um em cada quatro republicanos pensa diferente da maioria quando se trata da guerra no Irã. Este debate representa a indicação mais clara até agora de divisões na coalizão que levou Trump de volta à Casa Branca. Os argumentos relativos à agenda "América em primeiro lugar" do presidente vêm ganhando força há meses, mas a guerra no Irã cristalizou as lutas internas.
Dentro do grupo, há preocupações de que essas divisões possam prejudicar os republicanos nas eleições de meio de mandato, marcadas para novembro deste ano. O ativista republicano Vish Burra, de Nova York, explica que "a geração que compõe a base raiz é composta de muitas pessoas que foram para o Iraque e o Afeganistão", referindo-se às experiências traumáticas de guerras anteriores que moldam o ceticismo atual.
O que mostram as pesquisas de opinião
Contrariando o padrão histórico em que a popularidade dos presidentes americanos aumenta nas primeiras fases de ações militares, a aprovação líquida de Trump pouco mudou desde o início da guerra no Irã. Uma média de pesquisas compilada pelo portal RealClearPolitics indica que a maior parte dos americanos reprova a ação militar.
Em pesquisa da NBC News, 54% dos entrevistados discordam da forma como Trump vem lidando com o Irã. A divisão segue linhas partidárias:
- 89% dos democratas são contra a atuação do presidente
- 77% dos republicanos são favoráveis
Porém, ao examinar mais detalhadamente, surgem cisões evidentes na direita. Enquanto nove em cada dez republicanos que se identificam como "Maga" (partidários do movimento "Make America Great Again" de Trump) apoiam a guerra, os republicanos não-Maga são muito mais céticos - apenas metade aprova a operação e mais de um terço se declara contrário.
Vozes poderosas na oposição
Carlson não está sozinho em suas críticas. O podcaster Joe Rogan chamou a guerra no Irã de "insana", e a ex-congressista da Geórgia, Marjorie Taylor Greene, rompeu publicamente com Trump sobre o tema. Greene escreveu no X (antigo Twitter): "Nós votamos para não termos mais guerras, sem novas mudanças de regime", acrescentando que "Trump traiu suas promessas de campanha de não fazer mais guerras no exterior".
Essas figuras têm aliados em cargos públicos, como o congressista republicano Thomas Massie, do Kentucky, que apoiou um projeto para impedir a guerra (derrotado no Congresso). Mas sua maior influência se manifesta online, entre eleitores que se consideram "Maga real" - pessoas politicamente insatisfeitas atraídas pelas ideias de Trump durante a campanha, mas agora indiferentes ou críticas ao presidente.
Promessas de campanha versus realidade
Nas redes sociais, postagens destacam declarações contrárias à guerra feitas no passado por Trump e seus consultores. Poucos dias antes da eleição de 2024, Trump declarou a uma multidão em Nova York: "Vocês não terão uma guerra comigo e não terão uma guerra contra o Terceiro Mundo comigo".
O vice-presidente J.D. Vance relembrou em outubro passado uma conversa com o ativista conservador Charlie Kirk (assassinado em 2025), afirmando que Kirk foi uma das razões por que Trump "nunca levou os Estados Unidos a um conflito militar prolongado e nunca perdeu um único americano em um conflito no Oriente Médio". Essa realidade mudou: pelo menos 13 americanos já morreram na guerra atual, incluindo seis em um acidente de avião no Iraque.
Extremismo e vácuo de poder
A oposição à guerra criou espaço para visões extremistas ganharem relevância. O criador de conteúdo Nick Fuentes, de 27 anos, emite opiniões sarcásticas sobre eventos atuais e já declarou que "os judeus estão administrando a sociedade, as mulheres precisam calar a boca, a maioria dos negros precisa ser presa e nós viveríamos no paraíso".
O assassinato de Charlie Kirk e o descontentamento sobre questões como a economia e os arquivos de Epstein criaram um vácuo de poder na direita. Carlson convidou Fuentes para uma conversa basicamente amigável em outubro passado, despertando enorme debate sobre os limites do movimento conservador.
O escritor conservador Rod Dreher, amigo de J.D. Vance, realizou uma pesquisa informal entre homens jovens que trabalham em política em Washington e descobriu que 30 a 40% poderiam ser classificados como seguidores de Fuentes (conhecidos como "groypers"). Dreher afirmou à BBC: "Isso realmente me deixou chocado".
O futuro político de Trump
Trump permanece como a força mais poderosa do Partido Republicano, e seu apoio é cobiçado por candidatos nas primárias de meio de mandato. No entanto, especialistas alertam que tudo depende de quanto tempo a guerra irá durar e de seus efeitos sobre a economia americana, particularmente os preços do petróleo.
O estrategista político Matt Wiley adverte que o apoio a Trump poderá entrar em baixa "especialmente se ela se arrastar por meses, se Trump colocar tropas em terra e se forem perdidas mais vidas americanas". Enquanto isso, o professor de ciências políticas David Azerrad, do conservador Hillsdale College, observa que "por enquanto, o presidente pode continuar a ignorar os tagarelas negativistas", mas a situação pode mudar rapidamente conforme o conflito evolui.
