Canadá busca novos aliados após tarifas de Trump causarem queda de 1,6% no PIB
A histórica relação entre Canadá e Estados Unidos sofreu um abalo significativo após a imposição de tarifas comerciais pelo presidente Donald Trump. O país, que tradicionalmente mantinha uma parceria incondicional com seu vizinho ao sul, viu seu Produto Interno Bruto encolher 1,6% em 2025, um resultado bem pior do que as previsões iniciais.
Impacto econômico imediato
A medida que desencadeou a crise foi o anúncio de tarifas de 50% sobre itens nevrálgicos da cesta de exportações canadense. Trump justificou a ação citando um suposto excedente comercial de 200 bilhões de dólares, número que diverge radicalmente dos 33 bilhões registrados nas estatísticas oficiais. Não satisfeito, o presidente americano também ameaçou romper o acordo de livre-comércio USMCA, que substituiu o NAFTA e será revisto em julho.
O primeiro-ministro Mark Carney, que assumiu o comando do país diante deste cenário desafiador, reconhece que "nossas confortáveis suposições, de que nossas alianças automaticamente nos conferiam prosperidade e segurança, não são mais válidas". A declaração foi feita durante o Fórum Econômico de Davos, onde Carney ganhou destaque por seu discurso sobre a nova ordem mundial.
Revolução na política externa
Diante da situação econômica cambaleante, o Canadá iniciou uma verdadeira revolução em sua política externa, buscando novos parceiros comerciais e diplomáticos para reduzir sua dependência histórica dos Estados Unidos. A estratégia inclui:
- Aproximação com a China: Em janeiro, Carney realizou a primeira visita de um primeiro-ministro canadense a Pequim desde 2018, resultando em um acordo que prevê redução de tarifas sobre veículos elétricos chineses e produtos agrícolas canadenses.
- Parceria com a Europa: No sábado 14 de fevereiro, o Canadá aderiu ao programa Ação de Segurança para a Europa, que fornece empréstimos aos Estados-membros para investir em defesa, com o objetivo de reduzir a presença americana em diversos setores.
- Expansão para novos mercados: Segundo relatório da KPMG, 70% das empresas canadenses estão mirando mercados além-mar movidas por um senso de urgência, buscando maior segurança comercial.
Dependência histórica e consequências
A profundidade dos laços econômicos entre os dois países torna a situação particularmente delicada para o Canadá. 75% de todas as exportações canadenses são despachadas para solo americano, enquanto 17% dos manufaturados americanos fluem para o norte. Carlo Dade, especialista da Universidade de Calgary, observa que "a ligação é tão profunda que nos impediu de ver com clareza a mudança no status quo da relação".
A indústria automobilística tem sido uma das mais afetadas pelo distanciamento, com os Estados Unidos passando a se virar com suas próprias peças. Algumas fabricantes canadenses já começaram a fechar as portas, enquanto outras buscam desesperadamente mercados alternativos.
Reação popular e tensões diplomáticas
A escalada de tensões se reflete na opinião pública canadense. 64% dos 40 milhões de habitantes declaram ter visão negativa dos Estados Unidos, o maior índice registrado em décadas. Medidas como o impedimento de Trump à inauguração de uma ponte que liga Detroit e Windsor, responsável por 30% das trocas bilaterais, não ajudam a melhorar a imagem.
Trump não poupou críticas a Carney, referindo-se a ele como "governador Carney" e classificando-o como "um ingrato". O presidente americano continua a alardear sua visão expansionista, repetindo frequentemente que deseja que o Canadá se torne o "51º estado" dos Estados Unidos.
Agenda internacional intensificada
Com um PIB em declínio, Carney embarcou em uma atribulada agenda de viagens internacionais. Após visitas aos Emirados Árabes Unidos, Catar e diversos países europeus, o primeiro-ministro planeja viajar para a Índia nas próximas semanas - um destino onde, até poucos meses atrás, era considerado persona non grata devido a declarações de seu antecessor, Justin Trudeau.
O Canadá, que dividirá a Copa do Mundo de 2026 com Estados Unidos e México, nunca esteve tão aberto a fazer novos amigos. A busca por parcerias alternativas representa uma redefinição fundamental das alianças históricas do país, marcando o fim de uma era de dependência quase exclusiva dos Estados Unidos e o início de uma nova fase na política externa canadense.



