Brasileiras em Portugal Expressam Medo e Incerteza nas Vésperas do Segundo Turno Presidencial
Portugal se prepara para um momento histórico neste domingo (8), quando os eleitores irão às urnas para escolher seu novo presidente da República. Pela primeira vez em quatro décadas, o país realiza um segundo turno nas eleições presidenciais, com uma disputa acirrada entre o candidato socialista António José Seguro e o representante da extrema direita, André Ventura, do partido Chega.
Clima de Apreensão Entre a Comunidade Brasileira
Segundo pesquisas de intenção de voto divulgadas pela imprensa portuguesa na última semana, António José Seguro mantém vantagem e deve ser o vencedor da disputa. No entanto, entre os brasileiros residentes em Portugal, o clima é de apreensão e temor diante da possibilidade de uma vitória de André Ventura, que defende políticas migratórias muito mais rigorosas.
Letícia Bergamo, brasileira que vive há nove anos em Portugal e possui cidadania portuguesa, expressa sua preocupação: "O clima é de medo e de incerteza, e eu acho que o cidadão português, incluindo os imigrantes que estão lutando, não merecem ter este medo. Eles merecem ter sempre a esperança de que as coisas vão melhorar". Moradora de Cascais, na região metropolitana de Lisboa, Bergamo lidera uma comunidade de apoio a mães de crianças autistas e com deficiência.
Ela demonstra surpresa ao descobrir que o candidato do Chega foi o mais votado entre os brasileiros nos consulados e embaixadas do Brasil: "Eu posso ser cidadã portuguesa, mas eu sou imigrante. Não entendo isso de um imigrante que desmerece um outro. A gente está no mesmo mar. Temo por causa das ameaças, inclusive de tirar cidadanias. De interromper processos de cidadania que estão em andamento".
Impacto da Nova Lei dos Estrangeiros e Medos Concretos
A também brasileira Eliane Oliveira, que chegou há três meses em Portugal para trabalhar como babá, relata que conhece muitas pessoas apreensivas. Ela entrou no país europeu com a documentação em dia, mas destaca que colegas que estão por lá há algum tempo ainda estão irregulares e temem não conseguirem garantir seu visto de residência.
Esse temor se intensificou com o endurecimento do controle migratório causado pela nova Lei dos Estrangeiros, que entrou em vigor em outubro. Anteriormente, brasileiros e cidadãos de outros países lusófonos podiam chegar como turistas e depois regularizar a estadia. Agora, as regras são mais restritivas.
"Eles optam pelo outro candidato porque têm muito medo do que possa acontecer se o Ventura ganhar. Eles pensam assim: se o André Ventura ganhar, acabou. É pegar tudo que tem e ir embora, porque vai ser inviável. Vai ser quase impossível as pessoas conseguirem migrar, mesmo com o visto, sabe?", lamenta Eliane Oliveira.
Discurso Anti-Imigração e Preocupações com Xenofobia
Nos últimos anos, imigrantes brasileiros em Portugal e em outros países europeus vêm denunciando um aumento nos casos de xenofobia. Caroline Campos, advogada de imigração que mora em Mafra há oito anos, analisa que o tema da imigração tem sido utilizado de forma indevida pela extrema direita.
"A única coisa que se fala é da imigração, e se esquece que temos muitos problemas em relação à saúde, à educação. Esses temas ficam de lado. Esse discurso de ódio que vem sendo propagado acaba tirando do armário certos esqueletos. Pessoas que antes ficavam mais receosas e não falavam nada passam a replicar esse discurso, estimulados por toda essa desinformação e culpabilização da imigração no país como gerador dos problemas atuais", afirma Campos.
Como parte de sua campanha, o partido Chega espalhou outdoors pelo país com frases como "Devolvam Portugal aos portugueses" e "Imigrantes não devem viver de subsídios". A Justiça ordenou a retirada desses materiais, mas a mensagem já havia se espalhado, principalmente nas redes sociais.
Realidade dos Subsídios e Papel do Presidente
Letícia Bergamo contesta as acusações feitas pelos outdoors, argumentando que, para receber subsídios do governo, o estrangeiro precisa estar com sua documentação completamente regularizada: "Ninguém consegue nem receber cesta básica, é muito difícil". Eliane Oliveira concorda e ressalta a importância de chegar ao país com o visto de trabalho em dia, pois só assim se consegue acesso a moradia e conta bancária.
"Quando você vem ilegal, você paga valores 'fora da casinha'. Tudo se torna muito mais difícil e mais caro também. Não é uma tarefa fácil conseguir esses subsídios não", afirma Oliveira, destacando que a documentação, autorização de residência e contribuição com impostos são requisitos essenciais para acessar benefícios.
Apesar do temor com a possível vitória de Ventura, é importante notar que a figura do presidente tem menos peso nas decisões do dia a dia em Portugal. O país segue o regime do semipresidencialismo, onde questões como políticas anti-imigração são decididas pelo primeiro-ministro.
Atualmente, o premiê português é Luis Montenegro, líder da Aliança Democrática (AD), de centro-direita. Sua coalizão possui 91 dos 230 assentos no Parlamento. O Chega, de André Ventura, tem 60 cadeiras, duas a mais que o Partido Socialista de António José Seguro, que registrou seu pior desempenho em quatro décadas.
Caroline Campos reflete sobre o papel presidencial: "O presidente age meio como se fosse a Rainha da Inglaterra, né? Reina, mas não governa. Acho que, no final das contas, é o governo que o André Ventura almeja. O governo tem as decisões, as medidas que geram mesmo maior impacto na sociedade".
Enquanto o país se prepara para este momento decisivo, a comunidade brasileira em Portugal aguarda com ansiedade os resultados, esperando que as eleições não representem um retrocesso nos direitos e na acolhida aos imigrantes que tanto contribuem para a sociedade portuguesa.