Brasil mantém cautela extrema diante de convite de Trump para 'Conselho de Paz' sobre Gaza
A mais recente iniciativa internacional do presidente norte-americano Donald Trump acendeu alertas na diplomacia brasileira. Durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, Trump anunciou a criação de um 'Conselho de Paz' voltado à reconstrução da Faixa de Gaza após a devastação causada pela ofensiva israelense. O Brasil recebeu convite formal para integrar o grupo, mas o governo Luiz Inácio Lula da Silva adota postura de extrema prudência, evitando qualquer adesão precipitada.
Itamaraty desconfia de jogada geopolítica
Segundo análise do Itamaraty, a iniciativa pode representar menos um esforço humanitário genuíno e mais uma jogada geopolítica estratégica de Trump. A avaliação predominante entre diplomatas brasileiros é que o presidente americano busca criar uma entidade paralela que faça sombra à Organização das Nações Unidas, concentrando poder decisório em uma estrutura liderada diretamente pelos Estados Unidos.
O histórico recente de Trump reforça essas desconfianças. O presidente americano tem falado abertamente em outros contextos sobre interesses econômicos, como petróleo e reconstrução, sem recorrer à linguagem diplomática tradicional. No caso específico de Gaza, vídeos e declarações antigas sugerem um projeto de 'reformatação' completa do território, sem compromisso explícito com a autodeterminação do povo palestino.
Riscos de legitimação de intervenção direta
Para analistas brasileiros, o 'Conselho de Paz' poderia legitimar um projeto de intervenção direta em Gaza com forte viés econômico. A reconstrução do território palestino, segundo essa visão, abriria espaço para:
- Contratos bilionários de reconstrução
- Controle urbanístico e territorial
- Influência estratégica permanente
- Concentração de poder sob batuta de Washington
Na sexta-feira, 23 de janeiro, o presidente Lula já havia criticado publicamente a iniciativa de Trump, demonstrando alinhamento com as análises cautelosas do Itamaraty.
Posição histórica do Brasil entra em jogo
A resistência brasileira à adesão imediata está ancorada em uma linha histórica de defesa da autodeterminação dos povos e do reconhecimento do Estado palestino. Aderir a um conselho liderado por Trump neste momento poderia ser interpretado internacionalmente como endosso a uma iniciativa unilateral, especialmente num cenário em que importantes democracias europeias como Reino Unido, França e Itália já sinalizaram que ficarão de fora do grupo.
Até o momento, o 'Conselho de Paz' atraiu principalmente líderes alinhados politicamente a Trump ou governos com regimes pouco afeitos à democracia liberal. Na América do Sul, destacam-se Javier Milei, da Argentina, e o presidente do Paraguai. A ausência de democracias europeias relevantes reforça, aos olhos do Planalto, o risco de que o conselho se transforme em uma vitrine política pessoal de Trump, mais do que em um fórum legítimo de mediação internacional.
Perigo de 'cilada' diplomática
Para interlocutores do governo brasileiro, aderir agora poderia significar assumir corresponsabilidade por decisões futuras imprevisíveis. A avaliação é que o grupo pode funcionar como uma armadilha política perigosa: quem entra, endossa; quem endossa, perde margem de crítica quando os rumos do projeto se tornarem mais claros — e possivelmente mais controversos.
Nesse contexto complexo, o Brasil prefere manter o compasso de espera. Lula continua com discurso firme em defesa dos palestinos enquanto observa atentamente os próximos movimentos internacionais. Em um mundo cada vez mais polarizado, a diplomacia brasileira tenta não cair na tentação de soluções fáceis — sobretudo quando elas vêm embaladas como 'conselhos de paz' que podem esconder agendas geopolíticas menos transparentes.
A postura cautelosa reflete uma estratégia diplomática que busca equilibrar princípios históricos com realpolitik, evitando comprometer a posição internacional do Brasil em iniciativas cujos desdobramentos ainda são incertos e potencialmente problemáticos para a ordem multilateral estabelecida.