A amarga rivalidade entre Elon Musk e o CEO da OpenAI, Sam Altman, que já dura anos e se manifestava principalmente nas redes sociais, ganhou um novo palco: um tribunal federal na Califórnia. Na segunda-feira (27/04), Musk voltou a atacar Altman em uma publicação no X, chamando-o de "Scam Altman" (Altman golpista). Desde a terça-feira (28/04), o confronto entre os bilionários da tecnologia passou a ser analisado em um julgamento com duração prevista de um mês.
O caso em julgamento
O tribunal vai analisar a ação movida por Musk, que acusa Altman — com quem cofundou a OpenAI em 2015 — de tê-lo enganado em milhões de dólares e de ter traído a missão original sem fins lucrativos da empresa responsável pelo ChatGPT. Musk também entrou com ações contra a OpenAI, seu cofundador e presidente Greg Brockman, além da Microsoft, que, segundo ele, ajudou no plano de monetizar a empresa. A Microsoft nega as acusações.
Musk pede bilhões de dólares no que seus advogados chamam de "ganhos indevidos", valor que ele quer destinar ao financiamento do braço sem fins lucrativos da OpenAI, além de mudanças na empresa, incluindo a saída de Altman. A OpenAI, por sua vez, afirma que Musk é movido por inveja e arrependimento por ter deixado a empresa e tenta atrapalhar um concorrente na corrida rumo à inteligência artificial geral (AGI).
Origem da disputa
Musk e Altman cofundaram a OpenAI em 2015 como uma organização sem fins lucrativos, com a missão de garantir que a AGI beneficiasse toda a humanidade. Na época, Musk já era um tecnólogo de destaque, à frente da Tesla e da SpaceX. Altman, então na casa dos 20 anos, era conhecido no Vale do Silício como líder da incubadora Y Combinator. Os dois foram apresentados por um investidor em 2012.
O que começou como uma organização sem fins lucrativos acabou sendo transformado em uma entidade com fins lucrativos — de forma ilegal, segundo Musk. A OpenAI afirma que, em 2017, houve um acordo entre Musk e os demais envolvidos de que a criação de uma estrutura com fins lucrativos seria o próximo passo lógico. A empresa diz que rejeitou a proposta de Musk de assumir o cargo de CEO com "controle absoluto". Musk deixou a OpenAI em 2018, após uma disputa de poder com Altman.
Batalha de titãs
Desde que a ação foi movida em 2024, a animosidade entre Musk e Altman tem vindo a público com frequência. No ano passado, Musk e um consórcio de investidores ofereceram US$ 97,4 bilhões para comprar os ativos da OpenAI, que foi avaliada em US$ 157 bilhões em uma rodada recente de financiamento. A OpenAI rejeitou a oferta, e Altman respondeu no X: "não, obrigado, mas compramos o Twitter por US$ 9,74 bilhões, se você quiser". "Vigarista", retrucou Musk.
Mensagens privadas com Mark Zuckerberg também mostram Musk perguntando ao chefe da Meta se ele estaria "aberto à ideia de fazer uma oferta pela propriedade intelectual da OpenAI comigo e outros?". O interesse de Musk em comprar a empresa pode confundir o cenário do julgamento, segundo Dorothy Lund, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia.
Detalhes pitorescos
É esperado que o tribunal ouça o depoimento do CEO da Microsoft, Satya Nadella, dos ex-cientistas da OpenAI Mira Murati e Ilya Sutskever, e da ex-integrante do conselho da OpenAI Shivon Zilis, que é mãe de quatro dos filhos de Musk. Nos preparativos para o julgamento, vieram à tona detalhes curiosos, como a decisão da juíza de não permitir menção ao suposto uso de ketamina por Musk. A equipe jurídica de Musk também virou notícia: um de seus advogados trabalha como palhaço nas horas vagas, segundo o Business Insider.
O que está em jogo
O caso é de grande magnitude para Musk e para a OpenAI — e, potencialmente, para todos. Se Musk vencer, pode significar a derrota de um concorrente-chave na corrida pela AGI. "Quem vencer essa corrida terá um enorme poder", afirmou Rose Chan Loui, diretora executiva do Centro Lowell Milken de Filantropia e Organizações Sem Fins Lucrativos da UCLA. Para Sarah Federman, autora do livro Corporate Reckoning, a credibilidade de quem move a ação é um fator central.
O julgamento ocorre justamente no momento em que o público começa a compreender melhor como a inteligência artificial está sendo integrada ao dia a dia. O processo pode lançar nova luz sobre as ambições e intenções de Musk e Altman em relação ao desenvolvimento de uma tecnologia já utilizada por uma parcela crescente da população mundial.



