PF desmantela esquema bilionário de fraude em postos de combustíveis de Curitiba
A Polícia Federal (PF) indiciou oito pessoas por envolvimento em um sofisticado esquema de fraudes e adulteração em postos de combustíveis localizados em Curitiba e na Região Metropolitana. Os nomes dos investigados, identificados como o núcleo de comando e gestão da rede criminosa, não foram divulgados pelas autoridades.
As investigações, que tiveram início em 2023, revelaram que o esquema operava de duas formas principais: fornecendo menos combustível do que o indicado nas bombas dos postos ou aumentando ilegalmente a quantidade de etanol adicionado à gasolina, comprometendo a qualidade do produto.
Laudo aponta que 44 de 50 postos vendiam combustível a menos
Durante a operação, agentes da Polícia Federal coletaram, de forma disfarçada, amostras de gasolina comum em 50 postos de combustíveis entre os dias 26 de maio e 6 de junho de 2025. O laudo pericial, ao qual a reportagem teve acesso, apresenta resultados alarmantes.
Conforme o documento, apenas 6 das 50 amostras coletadas apresentaram a quantidade correspondente ao que estava descrito na nota fiscal fornecida pelos postos. Nos outros 44 casos, os estabelecimentos forneceram menos combustível do que o indicado na bomba, com diferenças que variaram de 1% até 8,1% a menos do que o valor pago pelo consumidor.
É importante destacar que o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) determina que a variação aceitável entre o volume real e o informado é de apenas 0,5% para mais ou para menos, o que coloca a grande maioria das amostras em flagrante desacordo com a regulamentação.
Qualidade inferior e adulteração no teor de etanol
A perícia também analisou aspectos como a aparência, o teor de etanol e a massa específica das amostras, verificando se estavam dentro das especificações de qualidade determinadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A análise técnica apontou que 28 das 50 amostras apresentaram qualidade inferior ao exigido pelas normas. Na avaliação da aparência, uma amostra foi reprovada por não apresentar aspecto límpido, homogêneo e isento de impurezas.
Em relação ao teor do etanol adicionado à gasolina, 28 amostras apresentaram valores acima do permitido. As amostras reprovadas nesta análise tinham de 35% a 79% de álcool misturado à gasolina, enquanto a quantidade máxima de etanol adicionado permitida na época da coleta era de 27%, com margem de variação aceitável de até 2% para mais ou para menos.
A Polícia Federal ressalta que essa prática criminosa, além de configurar crime, causa danos diretos aos veículos dos consumidores e aumenta artificialmente o lucro dos criminosos envolvidos no esquema.
Esquema bilionário de lavagem de dinheiro do crime organizado
As investigações da PF demonstraram que a fraude nos postos de combustível era apenas a ponta do iceberg de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro vinculado ao crime organizado. Os lucros obtidos enganando os consumidores eram reinjetados em uma complexa estrutura financeira que movimentou bilhões de reais.
De acordo com as apurações, o esquema utilizava empresas de fachada e laranjas profissionais para ocultar a origem ilícita dos recursos. A investigação teve início quando um homem condenado por tráfico internacional e sua esposa passaram a ostentar bens de luxo em um condomínio de alto padrão em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
O casal tinha mais de R$ 34 milhões sem origem lícita comprovada aplicados em imóveis, veículos, barcos e outros artigos de luxo. Durante as apurações, os agentes descobriram que eles se associaram a integrantes de uma empresa de produtos químicos e de uma distribuidora de petróleo com sede administrativa em Pinhais e sede operacional em Paulínia, no estado de São Paulo.
Com uma empresa de comércio de produtos químicos, os investigados compraram insumos como nafta e metanol, usados em misturas ilegais de combustíveis. Em 2019, criaram uma distribuidora de petróleo que, entre 2020 e 2023, declarou faturamento de mais de R$ 7 bilhões. Segundo a PF, a companhia foi criada e funcionou exclusivamente com recursos ilícitos.
Estrutura complexa de lavagem de dinheiro
A Polícia Federal explicou que a lavagem de dinheiro seguia três etapas bem definidas:
- Colocação: o dinheiro ilegal entrava na economia formal por meio de depósitos em espécie, muitas vezes fracionados em pequenas transações, além de transferências feitas por empresas de fachada registradas em nome de laranjas.
- Dissimulação: os valores circulavam entre diferentes empresas do grupo criminoso, com simulações de operações comerciais e fraudes fiscais para dificultar o rastreamento.
- Integração: os recursos voltavam ao mercado como se fossem legais, registrados em contabilidade fraudulenta da distribuidora de petróleo.
Os números do esquema são impressionantes:
- Foram identificados R$ 594 milhões em depósitos em espécie sem origem comprovada.
- R$ 148 milhões entraram diretamente nas contas da distribuidora.
- R$ 203 milhões foram depositados nas contas de postos e lojas de conveniência.
- R$ 163 milhões foram para uma instituição de pagamentos do próprio grupo, usada como barreira para ocultar a origem ilícita.
- R$ 80 milhões foram distribuídos em contas de 13 operadoras financeiras diferentes.
- R$ 482 milhões vieram de empresas de fachada ligadas ao estado de São Paulo.
Além disso, mais de 120 empresas suspeitas transferiram cerca de R$ 1,4 bilhão sem qualquer justificativa comercial plausível. No total, os investigadores estimam que mais de R$ 20 bilhões tenham circulado entre 2019 e 2025 em empresas sem declarações fiscais correspondentes às movimentações financeiras.
Penalidades e reações ao caso
Os oito investigados foram indiciados por estelionato, por usar artifício ardiloso para induzir o consumidor ao erro e obter vantagem ilícita, e por crime contra a ordem econômica, pela aquisição e revenda de combustíveis em desacordo com as normas legais. Somadas, as penas podem chegar a 40 anos de reclusão para cada um dos envolvidos.
O Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis (Paranapetro) emitiu nota afirmando que a infiltração do crime organizado no segmento de combustíveis de todo o Brasil é um problema grave e que investigações como esta são fundamentais para combater a ilegalidade no setor.
A investigação também apontou que a distribuidora de petróleo criada pelo grupo estava ligada a pessoas citadas em esquemas de fraude de combustíveis em São Paulo e no Rio de Janeiro, inclusive com conexões a facções criminosas, demonstrando a abrangência nacional do problema.