Operação desmonta esquema milionário que tentou desviar R$ 900 milhões da herança de fundador da Unip/Objetivo
Uma investigação conjunta do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil revelou nesta terça-feira (31) um sofisticado esquema criminoso que tentou desviar quase R$ 900 milhões da herança do empresário João Carlos Di Genio, fundador do grupo Unip/Objetivo, um dos maiores conglomerados de educação privada do Brasil. Di Genio faleceu aos 82 anos em fevereiro de 2022, deixando um patrimônio bilionário em processo de inventário.
Nove investigados e crimes graves
Ao todo, nove pessoas são investigadas pelos crimes de estelionato, falsificação de documentos, fraude processual e organização criminosa. Na manhã desta terça-feira, foram cumpridos mandados de busca e apreensão e prisão contra os suspeitos. A investigação foi conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que descreveu o esquema como extremamente sofisticado.
Mecanismo da fraude: dívida imobiliária fictícia
O grupo criminoso criou uma dívida imobiliária completamente fictícia para tentar se apropriar dos recursos da herança. Para isso, utilizaram duas empresas de fachada:
- Colonizadora Planalto Paulista Ltda.: Empresa que representava uma suposta vendedora de 448 imóveis em Piraju, interior paulista, e foi utilizada para lastrear o golpe, simulando um negócio imobiliário de R$ 635 milhões (valor posteriormente atualizado para R$ 845 milhões).
- Câmara Arbitral Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação Ltda. (Fonamsp): Funcionava como um tribunal simulado, utilizado para "fabricar" títulos executivos judiciais sem passar pelo crivo inicial da Justiça comum.
Falsificação de documentos e assinaturas
Segundo a investigação, o grupo criminoso forjou documentos datados de novembro de 2021 — apenas três meses antes da morte de Di Genio — para simular a compra e venda dos imóveis em Piraju. A perícia identificou que as assinaturas do fundador da Unip/Objetivo e de seu procurador foram falsificadas através de técnicas de decalque e montagem. Também foi forjada uma nota promissória no valor de R$ 635 milhões, colocando Di Genio na posição de devedor.
Três tentativas fracassadas de cobrança
Após a morte do empresário, os investigados realizaram três tentativas consecutivas para receber o valor milionário:
- Em agosto de 2024, notificaram o espólio exigindo o pagamento dos R$ 635 milhões, mas o suposto procurador de Di Genio — cuja assinatura havia sido falsificada — negou qualquer conhecimento do negócio.
- Tentaram habilitar o crédito diretamente no processo de inventário, conseguindo inicialmente uma reserva temporária de bens, mas a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça devido aos fortes indícios de fraude.
- Criaram a Câmara Arbitral Fonamsp para emitir um título executivo judicial sem passar pela Justiça comum, inserindo fraudulentamente uma cláusula de arbitragem em um termo aditivo contratual forjado. Uma integrante do grupo se passou por juíza arbitral e proferiu sentença condenando o espólio ao pagamento da dívida, atualizada para R$ 845.873.009,65.
Histórico criminoso dos envolvidos
As investigações apontaram que os principais envolvidos possuem longo histórico de práticas ilícitas, especialmente relacionadas à falsificação de documentos. O empresário Luiz Teixeira da Silva Junior é apontado como uma das figuras de comando da organização criminosa e principal beneficiário econômico do esquema.
"O que demonstra um padrão de atuação voltado à fraude, à dissimulação e à instrumentalização de expedientes documentais para obtenção de vantagens indevidas", afirmaram os promotores do caso.
Teixeira da Silva Junior já havia sido investigado anteriormente por suspeita de falsificar um laudo médico sobre uso de drogas para atingir o então candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL) nas eleições de 2024. Em fevereiro, foi condenado a pagar R$ 100 mil de indenização a Boulos por disseminar informações falsas.
Andamento das investigações
Até a última atualização desta reportagem, nenhum dos procurados havia sido preso. Eles continuam sendo investigados pelos crimes de estelionato, falsificação de documentos e fraude processual. A TV Globo tenta localizar as defesas dos investigados e representantes da Unip/Objetivo para comentarem o caso.



