Presidente brasileiro eleva tom em críticas à política externa americana e minimiza relação com homólogo argentino
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou significativamente o discurso da política externa brasileira em relação aos Estados Unidos durante uma entrevista exclusiva concedida ao prestigiado jornal espanhol El País, publicada nesta quinta-feira, 16 de abril de 2026. Em declarações contundentes, o mandatário petista direcionou severas críticas à atuação militar americana em diversas regiões do globo, incluindo a América Latina e o Oriente Médio, demonstrando uma postura firme e assertiva nas relações internacionais.
Críticas diretas à administração Trump e à ineficácia da ONU
Lula não poupou palavras ao se referir ao presidente norte-americano Donald Trump, afirmando categoricamente que o líder estadunidense "não tem direito de acordar de manhã e ameaçar um país". O presidente brasileiro destacou que a abordagem adotada por Trump parte de uma premissa equivocada, na qual a força econômica, militar e tecnológica dos Estados Unidos determinaria unilateralmente as regras do jogo geopolítico global.
"[Trump] está jogando um jogo muito equivocado. Parte da premissa de que a força econômica, militar e tecnológica americana determina as regras do jogo, mas isso cria problemas para os Estados Unidos", declarou Lula com firmeza. O mandatário ilustrou seu ponto citando especificamente a decisão de atacar o Irã, questionando se Trump teria considerado as consequências econômicas dessa ação, como o aumento no preço dos combustíveis que acabaria sendo suportado pela população.
Em relação à Organização das Nações Unidas, Lula foi igualmente crítico, afirmando que a instituição "não tem força para absolutamente nada". O presidente expressou desconforto com o fato de que o Conselho de Segurança, órgão criado especificamente para manter a paz mundial, frequentemente se envolve em ações bélicas, contradizendo sua própria razão de existir.
Defesa de reforma estrutural no Conselho de Segurança da ONU
Lula aproveitou a entrevista para reiterar sua defesa por uma reforma profunda e estrutural no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Segundo o presidente brasileiro, chegou o momento histórico de redefinir a organização para restaurar sua credibilidade internacional, sob pena de validar as críticas feitas por figuras como Donald Trump.
O petista propôs explicitamente a inclusão de novos membros permanentes no colegiado, mencionando o Brasil, a Índia, a Alemanha e nações representativas do continente africano como candidatos naturais a essas posições. Além disso, Lula defendeu a extinção do direito ao veto no conselho, mecanismo que, em sua avaliação, perpetua desequilíbrios de poder e impede decisões mais democráticas e representativas.
"Chegou o momento de redefinir as Nações Unidas para lhes dar credibilidade; do contrário, Trump tem razão", afirmou Lula, conectando suas críticas à instituição com sua visão sobre a administração americana.
Postura firme sobre intervenções americanas e situação na América Latina
Questionado sobre as persistentes tensões diplomáticas que afetam a América Latina, Lula adotou uma postura de firmeza ao declarar que os Estados Unidos "não podem crer que podem administrar a Venezuela". O presidente também criticou duramente o longo bloqueio econômico imposto a Cuba, afirmando que "setenta anos de bloqueio a Cuba não têm explicação", demonstrando solidariedade aos governos que enfrentam pressões internacionais.
Apesar das críticas contundentes, Lula afirmou não temer possíveis intervenções americanas no território brasileiro, mesmo considerando a proximidade ideológica entre o regime de Donald Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro. "Eu me sinto seguro. Aqui a democracia funciona, é um exemplo para os Estados Unidos", declarou o presidente, expressando confiança na estabilidade das instituições democráticas brasileiras.
Relação com Javier Milei: distância diplomática e expectativa futura
Em outro momento significativo da entrevista, Lula foi questionado sobre a recente decisão da Argentina de conceder asilo a um indivíduo condenado pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, ocorridos em Brasília. O presidente brasileiro minimizou a questão e afirmou que as decisões de seu homólogo argentino, Javier Milei, "não me deixam nervoso".
Lula foi direto ao definir a relação entre os dois líderes: "Não tenho nenhuma relação com o presidente Javier Milei, nem tenho interesse em tê-la". O mandatário brasileiro adotou uma postura de expectativa observadora, declarando que "veremos o que ocorre quando terminar seu mandato e o resultado daquilo que semeou na Argentina", sugerindo uma avaliação reservada sobre as políticas implementadas pelo governo argentino.
A entrevista completa revela um presidente Lula determinado a projetar uma política externa brasileira independente e crítica, posicionando o país como voz ativa na redefinição das estruturas de governança global, enquanto mantém relações diplomáticas seletivas e baseadas em princípios claramente definidos.



