Um levantamento inédito divulgado pelo Governo Federal nesta segunda-feira (18), em Manaus, revela que terras indígenas de pelo menos três municípios do Amazonas estão em áreas classificadas com alta vulnerabilidade ao avanço do crime organizado. O estudo aponta que Tabatinga, Atalaia do Norte, Barcelos e São Gabriel da Cachoeira concentram algumas das regiões mais críticas do estado, principalmente devido à presença de rotas do narcotráfico e crimes ambientais em áreas de fronteira.
Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado
Os dados fazem parte do Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado: Territórios Indígenas (IVCO-TI), apresentado durante o lançamento do programa "Território Seguro, Amazônia Soberana: Proteção da Amazônia e da Faixa de Fronteira", do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Segundo o levantamento, facções criminosas têm avançado sobre os territórios indígenas por meio do narcotráfico, garimpo ilegal, crimes ambientais e ameaças a lideranças indígenas.
Declarações da secretária nacional
Em entrevista, a secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), Marta Machado, afirmou que o estudo reúne dados sobre atuação do crime organizado e indicadores sociais das comunidades. "A gente construiu um índice que combina dados de atividade do crime organizado, como apreensões e pistas de pouso, com indicadores sociais que refletem a resiliência daquela comunidade. O crime organizado tem recrutado muitos jovens indígenas e ameaçado lideranças. Quase todos os territórios do Amazonas estão ameaçados, especialmente na região de fronteira", disse.
Metodologia e indicadores
O levantamento analisou 39 indicadores, incluindo degradação ambiental, presença de rotas do tráfico, pistas de pouso clandestinas, renda, moradia, educação, saúde e registros de violência. De acordo com o relatório, 51,2% dos 1,7 milhão de indígenas do Brasil vivem na Amazônia Legal. O estudo também aponta que organizações criminosas aproveitam a ausência de serviços públicos e a fragilidade do Estado para ampliar atuação nas comunidades.
Recrutamento de jovens e violência
"O crime organizado tem recrutado muitos jovens indígenas, tem ameaçado lideranças e entrado nos territórios indígenas dessa maneira. Então, a partir desse conjunto de indicadores, a gente construiu essa análise dos territórios que têm alta vulnerabilidade, média alta, média baixa e baixa vulnerabilidade", afirmou Marta Machado. Ainda segundo o estudo, em 2024 foram registrados 1.241 casos de violência relacionados à propriedade em territórios indígenas no Brasil, incluindo 230 invasões de terras e exploração ilegal de recursos naturais.
Parcerias e resultados de operações
O índice foi desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Drogas e Desenvolvimento Social Comunitário (Cdesc), em parceria com a Senad, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Durante o evento, o Ministério da Justiça também apresentou resultados de operações realizadas na Amazônia Legal entre 2023 e 2026. Segundo o governo federal, ações da Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Força Nacional apreenderam 37,8 toneladas de cocaína e aumentaram em 318% a apreensão média anual de ouro ilegal, que chegou a 86 quilos. As operações também resultaram na destruição de 1.951 dragas usadas no garimpo ilegal e no cumprimento de quase 1.600 mandados de busca e apreensão.



