O Brasil alcançou a 52ª colocação no mais recente ranking mundial de liberdade de imprensa, divulgado pela organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) na quinta-feira, 30 de maio. O país registrou um avanço significativo de 58 posições desde 2022 e, pela primeira vez, ultrapassou os Estados Unidos, que ocupam a 64ª posição. Em comparação com o ano anterior, o Brasil subiu 11 posições.
Avanço brasileiro é exceção global
De acordo com a RSF, o progresso brasileiro é uma das raras exceções em um cenário mundial de deterioração da liberdade de imprensa. O diretor da organização para a América Latina, o jornalista brasileiro Artur Romeu, destacou que se trata de um avanço muito expressivo em um contexto em que a maioria dos países enfrenta um quadro de retrocesso. Para ele, o Brasil é um ponto fora da curva, com evolução após os momentos de tensão durante o governo de Jair Bolsonaro, marcados por ataques diários contra jornalistas. Romeu afirmou que um dos indicadores é o retorno à normalidade, a uma relação institucional democrática entre governo e imprensa.
Fatores que contribuíram para a melhora
Outro fator apontado foi a ausência de assassinatos de jornalistas no Brasil desde a morte de Dom Phillips, em 2022, na Amazônia. Entre 2010 e 2022, o país registrou 35 homicídios de profissionais da imprensa. Além disso, o Brasil tem estruturado ações de proteção ao trabalho jornalístico, como a agenda de regulação de plataformas, inteligência artificial, defesa da integridade da informação e combate à desinformação. Medidas pontuais incluem a criação do Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e a adoção de um protocolo de investigação de crimes contra a imprensa. Contudo, Romeu contextualizou que o crescimento brasileiro também reflete a degradação da situação em outras nações.
Estados Unidos como parâmetro negativo
A pontuação do Brasil subiu cerca de 11 pontos. Em contrapartida, os Estados Unidos tornaram-se um parâmetro negativo, encorajando outros governos alinhados a adotar práticas semelhantes. Os efeitos são observados na Argentina, do presidente Javier Milei, que caiu 69 posições desde 2022. Segundo Romeu, o governo norte-americano instrumentaliza uma visão deturpada de liberdade de expressão ao atacar a imprensa, gerando hostilidade sistêmica que capitaliza ganhos eleitorais ao alimentar a polarização política.
Ameaças à imprensa brasileira
As ameaças não se limitam a representantes eleitos. Há também a instrumentalização da Justiça para intimidar jornalistas, com processos judiciais abusivos contra a imprensa brasileira. Romeu mencionou um cenário de criminalização do jornalismo, no qual legislações são usadas para calar a imprensa. Nos últimos quatro anos, quatro dos cinco indicadores do Brasil subiram, mas um caiu: o que mede a confiança da sociedade na imprensa, o volume de campanhas de ódio, a pluralidade de opiniões e a percepção de autocensura.
Panorama global
Pela primeira vez na história do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, mais da metade dos países do mundo encontra-se em situação difícil ou grave. A pontuação média global nunca foi tão baixa em 25 anos. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump transformou ataques a jornalistas em prática sistemática, resultando em queda de sete posições neste ano. O relatório aponta que, nas Américas, autoridades agravam pressões por meio de retórica hostil, restrições jurídicas e administrativas, acesso limitado à informação pública e instrumentalização dos sistemas jurídicos.
Casos específicos nas Américas
Na Argentina, sob Javier Milei, a liberdade de imprensa caiu para a 98ª posição, com perda de 11 posições no ano e 69 desde 2022. O Equador teve a maior queda regional, com 31 posições, devido ao avanço do crime organizado, que matou três jornalistas no último ano. O Peru (144ª) perdeu 14 posições, com quatro jornalistas assassinados, totalizando queda de 67 posições desde 2022. Em El Salvador (143ª), a tendência de queda se mantém, com perda de 74 posições desde a chegada de Nayib Bukele ao poder em 2019. O México (122ª) tem uma das piores pontuações de segurança, atrás apenas da Nicarágua (172ª). Na lanterna regional estão Nicarágua (172ª), Cuba (165ª) e Venezuela (160ª). Globalmente, as piores posições são Irã, China, Coreia do Norte e Eritreia. O Canadá (20º) lidera as Américas, e os 19 primeiros lugares são europeus, com Noruega em primeiro, seguida por Holanda e Estônia.



