O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem apostado em uma combinação de gestos simbólicos e políticas de impacto direto no bolso dos brasileiros para sustentar a recuperação de popularidade registrada no final de 2025. No entanto, essa estratégia eleitoral rumo à disputa de 2026 esbarra em dois obstáculos centrais: uma rejeição elevada, em torno de 46%, e um custo fiscal considerado alto, que pressiona as contas públicas. A análise é do cientista político Rubens Figueiredo, que participou do programa Ponto de Vista.
Popularidade em recuperação, mas cenário imprevisível
Figueiredo reconhece que Lula conseguiu encerrar o ano passado em uma situação melhor do que a projetada meses antes. A presença do presidente em atos políticos, como o recente veto ao PL da Dosimetria, e o foco em medidas que afetam diretamente o orçamento familiar têm sido parte dessa movimentação. Contudo, o especialista faz um alerta: “É muito difícil falar em reversão definitiva. Ainda tem muita água para rolar”.
Para ele, o cenário permanece distante de qualquer previsibilidade confortável para o Palácio do Planalto. A melhora nos índices de aprovação não significa uma tendência consolidada, e a alta rejeição ao presidente é o número que mais preocupa.
O peso do Estado e o pragmatismo das alianças
Um dos pilares da estratégia governista, segundo a análise, é a forte dependência de parte da população em relação ao Estado. Figueiredo estima que cerca de 99 milhões de brasileiros dependam diretamente de recursos públicos, seja por benefícios assistenciais, previdência ou programas de transferência de renda.
“O Estado é muito importante na vida das pessoas, especialmente num país com renda média baixa e baixo nível de escolaridade”, afirma o cientista político. Nesse contexto, medidas como a ampliação do Bolsa Família, o vale-gás e isenções no Imposto de Renda tendem a melhorar a percepção sobre o governo, principalmente entre eleitores indecisos.
A composição da chapa com Geraldo Alckmin, mencionada novamente por Lula em discurso recente, é vista como um movimento essencialmente pragmático. “Foi uma escolha para ganhar a eleição”, resume Figueiredo, lembrando que a aliança buscou ampliar o arco de apoio em um momento de forte polarização política.
Rejeição robusta e o teto da estratégia
O ponto que mais limita o crescimento da base de apoio de Lula é a taxa de rejeição. O percentual de cerca de 46% é classificado pelo analista como “parrudo” e “robusto”.
“Isso deixa pouco espaço para avançar além do núcleo de apoio já consolidado”, avalia. Em outras palavras, a margem para conquistar novos eleitores é reduzida por essa rejeição significativa, que funciona como um teto para a popularidade presidencial.
O preço eleitoral e o déficit fiscal
A aposta em políticas de ampliação de benefícios e incentivos, porém, tem um lado negativo destacado na análise: o custo fiscal. Figueiredo aponta que essa estratégia ocorre às custas de um déficit fiscal maior, o que pode gerar pressões econômicas no médio prazo.
Ainda assim, o cientista político não tem dúvidas sobre o caminho que será seguido. “Não há dúvida nenhuma de que Lula fará tudo o que for necessário para ganhar a eleição, mesmo com o custo fiscal mais alto”, conclui.
O resultado desse cálculo complexo – que equilibra a recuperação de popularidade, uma rejeição elevada e a pressão sobre as contas públicas – deve ser um dos elementos centrais a moldar o debate político ao longo de todo o ano de 2026.