A venda da mina de terras raras localizada em Minaçu, na região norte de Goiás, por US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 14 bilhões) coloca o estado em destaque no cenário mundial. A Serra Verde, única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), foi adquirida pela empresa norte-americana USA Rare Earth. O anúncio foi feito na segunda-feira (20) e prevê a combinação das operações das duas companhias para liderar toda a cadeia produtiva, desde a extração até a fabricação de ímãs permanentes.
Detalhes do acordo
Do montante de US$ 2,8 bilhões, US$ 300 milhões serão pagos em dinheiro e o restante em ações. Além da aquisição, o acordo inclui um contrato de fornecimento de 15 anos, com preços mínimos estabelecidos para os minerais, garantindo previsibilidade de receita e redução de riscos operacionais.
Impactos na operação local
Ricardo Grossi, presidente e diretor de operações da Serra Verde, afirmou que a venda não promoverá mudanças imediatas na operação no Brasil. “A mina e a planta em Minaçu seguem operando normalmente, sob a liderança da equipe atual, com continuidade da estratégia já em curso. A operação permanece focada no ramp-up e na expansão previstos”, explicou. A mineradora iniciou sua produção comercial em janeiro de 2024.
Questões legais e políticas
Na sexta-feira (24), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, declarou que o subsolo brasileiro pertence à União e que cabe a ela regulamentar a exploração de terras raras. Ele apontou um vício de inconstitucionalidade no memorando de entendimento entre o governo de Goiás e os Estados Unidos. Deputados do PSOL protocolaram uma representação na Procuradoria-Geral da União questionando a legalidade da aquisição.
Geração de empregos
Atualmente, a mineradora emprega cerca de 400 pessoas em Minaçu, sendo 72% da força de trabalho formada por moradores da região. Grossi destacou a expectativa de que a venda gere novos empregos. “A empresa combinada terá receitas asseguradas por um acordo de fornecimento de 15 anos, estrutura financeira sólida e acesso a tecnologia de ponta”, disse. O foco inicial é elevar a produção para 6,4 mil toneladas por ano de óxidos de terras raras até o fim de 2027.
O prefeito Carlos Leréia (PSDB) comemorou o acordo, afirmando que a mineração gera empregos e aumenta a arrecadação. Ele destacou que os valores por tonelada devem aumentar de seis a oito vezes em comparação com as vendas anteriores para a China.
Interesse dos Estados Unidos
O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, que domina mais de 60% da produção global e quase 90% do refino. Os EUA já haviam demonstrado interesse em acordos com o Brasil para minerais estratégicos. A Serra Verde recebeu financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (DFC) para otimização e expansão.
Próximos passos
A transação depende de aprovações regulatórias e deve ser finalizada no terceiro trimestre de 2026. A integração das operações ocorrerá de forma gradual, com impactos mais concretos previstos até 2027, quando a planta deve atingir capacidade plena.
Riscos e pontos de atenção
A economista Adriana Pereira de Sousa alertou para riscos como a dependência excessiva de commodities, sujeitas à volatilidade de preços internacionais, e a necessidade de rigor ambiental e transparência na gestão dos recursos públicos. “Sem planejamento e regulação eficiente, os custos sociais e ambientais podem superar os benefícios econômicos”, afirmou.
O que são terras raras?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e condutoras únicas, essenciais para tecnologias modernas como veículos elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos. Apesar do nome, não são necessariamente raras, mas difíceis de extrair em concentrações puras. Os elementos produzidos em Minaçu (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio) são fundamentais para a cadeia de tecnologias de baixo carbono.



