Justiça israelense estende prisão de ativistas da flotilha para Gaza
Um tribunal em Israel decidiu prorrogar até o próximo domingo, 10 de maio, a detenção de dois ativistas que participavam de uma flotilha com destino à Faixa de Gaza. O brasileiro Thiago Ávila e o espanhol-palestino Saif Abu Keshek foram presos na semana passada nas proximidades da costa da Grécia e levados para interrogatório em território israelense.
De acordo com informações divulgadas pela organização não governamental israelense Adalah, os dois compareceram nesta terça-feira, 5, pela segunda vez a um tribunal na cidade costeira de Ashkelon, localizada a aproximadamente 60 quilômetros de Tel Aviv. A coordenadora internacional da ONG, Miriam Azem, confirmou à agência AFP que a corte autorizou a continuidade da prisão até o início da próxima semana.
Acusações e contexto da prisão
As autoridades israelenses afirmam que Thiago Ávila é "suspeito de atividade ilegal", enquanto Saif Abu Keshek é apontado como "suspeito de ligação com uma organização terrorista". A suspeita recai sobre a Conferência Popular para os Palestinos no Exterior (PCPA), entidade sancionada pelos Estados Unidos, que a acusa de atuar clandestinamente em nome do grupo Hamas, considerado terrorista por Israel e por diversos países ocidentais.
Os ativistas foram capturados a bordo da Flotilha Global Sumud, que pretendia romper o bloqueio naval imposto por Israel à Faixa de Gaza. A maior parte dos participantes — cerca de 175 pessoas em aproximadamente 20 embarcações — desembarcou na última sexta-feira na ilha grega de Creta. No entanto, Ávila e Keshek foram retidos para interrogatório, conforme comunicado do Ministério das Relações Exteriores de Israel.
Outros brasileiros na flotilha
Além de Thiago Ávila, outros três brasileiros que integravam a missão foram interceptados pelas forças israelenses. São eles Amanda Coelho Marzall, conhecida como Mandi Coelho, militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e pré-candidata a deputada federal por São Paulo; Leandro Lanfredi de Andrade, petroleiro da Petrobras Transporte e diretor do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros; e a ativista Thainara Rogério.
Objetivo da flotilha e reação israelense
A Flotilha Global Sumud — cujo nome significa "resiliência" em árabe — tinha como objetivo levar ajuda humanitária ao território palestino, que enfrenta uma grave crise desde o início da guerra em outubro de 2023. Os barcos que não foram interceptados seguiram para a cidade cretense de Ierápetra.
Segundo relatos do grupo, agentes israelenses apontaram armas de assalto para os tripulantes e ordenaram que se deslocassem para a parte dianteira das embarcações. A operação ocorreu perto da Ilha de Creta, a uma distância considerada "sem precedentes" do território israelense. O Ministério das Relações Exteriores de Israel, por sua vez, classificou a iniciativa como uma "flotilha de propaganda" e alegou ter encontrado "preservativos e drogas" a bordo, afirmação prontamente negada pelo porta-voz do grupo, que a classificou como "desinformação".
Esta não é a primeira vez que comboios internacionais são interceptados. Em 2025, duas missões anteriores, que contavam com ativistas como Greta Thunberg e figuras latino-americanas, incluindo Thiago Ávila, foram abordadas pela Marinha israelense em frente às costas do Egito e de Gaza.
Condenação internacional e crise humanitária
A abordagem das embarcações foi considerada ilegal pelos organizadores e pela Anistia Internacional, gerando condenações em todo o mundo. As autoridades israelenses controlam todos os pontos de entrada em Gaza e são acusadas pela ONU e por ONGs de impedir a entrada de bens essenciais, resultando em grave escassez desde o início do conflito.
Um relatório divulgado nesta semana pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) acusa Israel de utilizar "a privação deliberada de água" como arma contra a população palestina. A prática ocorre em paralelo à destruição de instalações de saúde, residências e à morte de civis, além de deslocamentos forçados em massa. Especialistas da ONU afirmam que negar o acesso à água viola o Direito Internacional Humanitário e as Convenções de Genebra, constituindo crime de guerra.
Claire San Filippo, coordenadora de emergência do MSF, alertou: "As autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba, mas, mesmo assim, destruíram deliberada e sistematicamente a infraestrutura hídrica em Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueiam consistentemente a entrada de suprimentos relacionados ao abastecimento de água."
No início do mês, a ONU e a União Europeia informaram que serão necessários US$ 71,4 bilhões (cerca de R$ 355 bilhões) para reconstruir a devastada Faixa de Gaza na próxima década, conforme estimativas de um estudo realizado com o Banco Mundial. O documento aponta que mais de 371 mil residências foram danificadas ou destruídas, quase todas as escolas palestinas foram afetadas, mais da metade dos hospitais está fora de funcionamento e a economia do território sofreu retração de 84%.
Cerca de 1,9 milhão de pessoas foram deslocadas, e mais de 60% da população perdeu suas casas, agravando a crise humanitária. Segundo fontes médicas citadas pela ONU, ao menos 72 mil palestinos morreram e outros 172 mil ficaram feridos desde 7 de outubro de 2023, data dos ataques do Hamas contra Israel.



