Um caso recente na Colômbia, onde uma mulher deu à luz gêmeos de pais diferentes, chamou a atenção para a complexidade do corpo humano e para um fenômeno conhecido como superfecundação heteropaternal. Embora existam poucos relatos documentados na literatura científica — estima-se cerca de 20 casos —, especialistas ouvidos pelo g1 acreditam que o fenômeno pode ser mais comum do que se imagina.
O que é a superfecundação heteropaternal?
O professor Paulo Gallo, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e especialista em reprodução humana da Clínica Vida/FertGroup, explica que esses casos geralmente são descobertos apenas quando um teste de paternidade é realizado. Segundo ele, esse tipo de exame em gêmeos costuma ocorrer apenas em situações de disputa judicial por pensão alimentícia ou quando há diferenças físicas muito marcantes entre as crianças. Características isoladas, como a cor dos olhos, raramente motivam a realização do teste.
Fecundação e superfecundação
Para que a fecundação ocorra, é necessário que o óvulo liberado durante o ciclo menstrual encontre um espermatozoide. Normalmente, a mulher libera um óvulo por ciclo. Em alguns casos, porém, pode haver a liberação de mais de um óvulo no mesmo período, aumentando a chance de uma gestação de gêmeos fraternos. Esse tipo de ovulação dupla é considerado incomum de forma natural, mas pode acontecer — e é mais frequente em tratamentos de fertilidade que estimulam os ovários.
Quando mais de um óvulo é liberado, há chance de gestação gemelar. A incidência de gestação gemelar varia de 1 a 2% das gestações. De cada quatro gêmeos que nascem, três são bivitelinos ou fraternos (gerados de óvulos e espermatozoides diferentes) e um é idêntico ou univitelino (originário do mesmo óvulo e mesmo espermatozoide, quando um embrião único se divide em dois).
Janela de fertilidade
Os óvulos permanecem vivos por cerca de 24 horas após serem liberados. Já os espermatozoides podem sobreviver de 3 a 4 dias no trato reprodutivo feminino. Isso explica por que casais que tentam engravidar são orientados a ter relação sexual antes da ovulação — para que o espermatozoide já esteja na trompa quando o óvulo for liberado. Dessa forma, uma mulher que tem mais de uma ovulação no mesmo ciclo e tem relação sexual com dois homens, com poucos dias de diferença, pode ter gêmeos não idênticos de pais diferentes.
Gallo ressalta que esses episódios podem ser mais comuns do que imaginamos, porque testes de paternidade não são rotineiros. Geralmente, eles ocorrem após brigas judiciais ou quando um gêmeo é muito diferente do outro. O médico explica ainda que, na faixa dos 30 anos, apenas cerca de 50% dos óvulos são bons o suficiente para gerar uma gestação. Na faixa dos 40 anos, esse índice cai para 20%. Portanto, para que a superfecundação heteropaternal ocorra, é necessário haver poliovulação, relação com dois homens diferentes em curto intervalo de tempo e que ao menos dois óvulos sejam bons o suficiente para serem fecundados.
Casos raros e técnicas de fertilização
A professora titular de genética humana e médica do Instituto de Biociências da USP, Mayana Zatz, acrescenta que já foi descrito um caso de gêmeos fraternos do mesmo pai, mas com um mês de diferença. Apesar de a mulher estar grávida, ela continuou ovulando e teve um segundo óvulo fecundado já durante a gestação do primeiro feto.
Tratamentos de fertilidade aumentam chance
A liberação de mais de um óvulo ocorre de forma espontânea em apenas 20% das ovulações. No entanto, tratamentos de fertilização podem estimular a poliovulação. Medicamentos como o citrato de clomifeno e o letrozol são usados por pacientes com dificuldade de engravidar para indução da ovulação. O primeiro é usado desde 1960 e pode fazer com que a mulher tenha uma ovulação múltipla de dois ou três folículos.
Entenda melhor o processo: Durante o ciclo menstrual, o hormônio FSH (folículo-estimulante), produzido pela hipófise, estimula o crescimento dos folículos ovarianos. Quando esses folículos atingem cerca de 14 milímetros, substâncias são produzidas para inibir o crescimento de outros folículos, e o folículo dominante continua crescendo. Em certo momento, a hipófise libera outro hormônio, chamado LH (hormônio luteinizante). No momento da ovulação, o folículo se rompe e libera o óvulo, que é captado pela trompa. É ali que ele pode encontrar os espermatozoides. Muitos espermatozoides ajudam a atravessar as camadas que envolvem o óvulo, mas apenas um consegue penetrar e realizar a fecundação.
Medicamentos usados para estimular a ovulação podem levar à poliovulação, aumentando a chance de superfecundação heteropaternal. Contudo, esse fenômeno só é confirmado após o teste de paternidade, que não é comum.
Como é feita a análise de paternidade
Metade do material genético da criança vem da mãe e a outra metade, do pai. Para confirmar a paternidade, os cientistas analisam fragmentos de DNA da criança, da mãe e do suposto pai. A análise costuma ser feita com amostra de sangue ou com células da bochecha (swab bucal).



