Os gastos globais com a indústria bélica atingiram níveis históricos em 2025, totalizando US$ 2,9 trilhões, o equivalente a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Os dados são do relatório anual Tendências nos Gastos Militares Mundiais, divulgado nesta segunda-feira, 27, pelo SIPRI, instituto de referência em monitoramento de defesa e armamentos. O percentual é o maior desde 2009, marcando o 11º ano consecutivo de crescimento.
Segundo a pesquisa, a escalada foi impulsionada principalmente pelo aumento dos investimentos militares na Europa e na Ásia-Oceania, em meio à guerra na Ucrânia, às tensões no Indo-Pacífico e ao movimento de aliados dos Estados Unidos para ampliar sua capacidade de defesa diante de um cenário internacional cada vez mais instável. O crescimento global foi de 2,9% em relação a 2024, abaixo dos 9,7% registrados no ano anterior. O instituto destaca que a desaceleração se deve, em grande parte, à suspensão de novos pacotes de ajuda militar americana para Kiev em 2025. Sem essa variável, o crescimento mundial teria atingido 9,2%.
Estados Unidos mantêm liderança
Os Estados Unidos continuam como a maior potência militar do planeta, com US$ 954 bilhões em despesas de defesa. Esse valor supera a soma dos gastos de vários dos principais países seguintes no ranking: China (US$ 336 bilhões), Rússia (US$ 190 bilhões), Alemanha (US$ 114 bilhões) e Índia (US$ 92,1 bilhões). Juntos, os cinco maiores investidores responderam por 58% de todo o gasto militar global.
Europa acelera armamento
A Europa liderou a expansão militar global em 2025, com um aumento de 14% nos gastos, alcançando US$ 864 bilhões. Esse foi o maior salto regional do período e o crescimento mais acelerado entre membros europeus da Otan desde 1953, logo após a criação da aliança. O avanço reflete tanto a continuidade da guerra na Ucrânia quanto uma mudança estrutural na estratégia de segurança europeia, marcada pela pressão dos EUA por maior divisão de encargos e pela busca crescente de autonomia militar.
Entre os países da Otan com maiores aumentos proporcionais estão Bélgica (59%), Espanha (50%), Noruega (49%), Dinamarca (46%), Alemanha (24%), Polônia (23%) e Canadá (23%). A Alemanha tornou-se o quarto maior investidor militar do mundo, consolidando uma transformação histórica em sua política de defesa, tradicionalmente mais contida no pós-Segunda Guerra Mundial. A Espanha, embora com mais reticência, ultrapassou pela primeira vez em décadas o patamar de 2% do PIB destinado à defesa, alinhando-se às metas da Otan.
Guerra na Ucrânia
A invasão russa da Ucrânia continua sendo um dos principais motores da expansão militar mundial. A Ucrânia foi novamente o país que mais destinou parcela de sua economia à defesa: cerca de 40% do PIB. Devido à guerra, Kiev tornou-se a sétima maior força militar do planeta, com US$ 84,1 bilhões. Já a Rússia ampliou seus gastos em 5,9% no ano passado, destinando 7,5% de seu PIB às Forças Armadas. Segundo o SIPRI, os gastos militares como proporção das despesas governamentais atingiram níveis históricos tanto na Rússia quanto na Ucrânia, e devem continuar crescendo caso o conflito se prolongue.
Ásia amplia gastos
Na Ásia-Oceania, os gastos militares cresceram 8,1%, totalizando US$ 681 bilhões, o maior aumento regional desde 2009. A China, principal potência militar asiática, registrou salto de 7,4%, o maior incremento anual da última década e o 31º ano consecutivo de expansão de seu orçamento militar, enquanto Pequim avança em sua meta de modernização plena das Forças Armadas até 2035. O crescimento chinês impulsionou reações em países vizinhos e aliados dos EUA. O Japão ampliou seus gastos em 9,7%, chegando a US$ 62,2 bilhões, com despesas equivalentes a 1,4% do PIB, o maior percentual desde 1958, desafiando as prerrogativas pacifistas de sua Constituição pós-guerra.
Taiwan, sob crescente pressão militar da China, elevou investimentos em 14,2%, o maior salto desde pelo menos 1988. Austrália e Filipinas também reforçaram significativamente seus orçamentos, em um cenário de crescente insegurança sobre a eficácia do guarda-chuva militar americano na região.
Oriente Médio, Índia e África
No Oriente Médio, a Arábia Saudita continuou como maior investidor regional, com US$ 83,2 bilhões. Israel reduziu seus gastos militares em 4,9% após o arrefecimento parcial da guerra em Gaza com o cessar-fogo firmado em outubro de 2025, embora o nível permaneça muito superior ao registrado antes do conflito. O Irã, que agora vive uma guerra contra Estados Unidos e Israel, registrou queda oficial, mas especialistas avaliam que inflação elevada e receitas petrolíferas extraoficiais provavelmente mascaram um crescimento real mais robusto.
Na Ásia Meridional, a Índia ampliou seu investimento no setor em 8,9%, impulsionada por tensões com o Paquistão, consolidando-se como quinta maior potência militar em despesas absolutas. Na África, os investimentos cresceram 8,5%, liderados pela Argélia, que figura entre os países que mais comprometem proporção do PIB com defesa.
Brasil lidera América do Sul
Na América do Sul, os gastos militares cresceram 3,4%, alcançando US$ 56,3 bilhões. O Brasil permaneceu como principal potência militar regional, elevando suas despesas em 13%, para US$ 23,9 bilhões, ocupando a 21ª posição mundial. A Guiana também registrou aumento expressivo, impulsionada por tensões territoriais com a Venezuela na região de Essequibo.
O SIPRI projeta que o atual ciclo de expansão militar está longe de terminar. A combinação de guerra prolongada no Leste Europeu, rivalidade sino-americana, instabilidade no Oriente Médio e novas prioridades estratégicas de grandes potências indica que os gastos militares devem continuar crescendo até 2026 e além.



