Carne de burro: alternativa econômica na Argentina
A carne bovina argentina, reconhecida mundialmente pela qualidade e maciez, sempre foi um símbolo da culinária do país. No entanto, com a inflação em alta e a perda de poder de compra, uma alternativa pouco convencional começa a ganhar espaço: a carne de burro.
Em Trelew, na Patagônia, um projeto piloto chamado "Burros Patagônicos" está chamando a atenção. Idealizado pelo produtor rural Julio Cittadini, o projeto oferece carne de burro em um açougue e em um restaurante tradicional da cidade. A iniciativa, que aguardava autorização sanitária há dois anos, rapidamente atraiu o público.
Sucesso de público e preço acessível
Carla Gutiérrez, proprietária do restaurante Don Pedro, relatou que pratos como empanadas, churrasco e linguiça feitos com carne de burro foram um sucesso. "Veio muita gente e todos gostaram. A carne é parecida com a bovina, só um pouco mais escura e com menos gordura", afirmou. O produto se esgotou rapidamente no açougue.
O preço é um dos principais atrativos. Em Trelew, o quilo da carne de burro custa cerca de 7.500 pesos (aproximadamente R$ 27), enquanto a carne bovina pode chegar a 18 mil ou 19 mil pesos (R$ 65 ou R$ 69). "Estamos em recessão", comentou Carla.
Inflação e queda no consumo de carne bovina
A procura por opções mais baratas ocorre em um cenário de inflação elevada na Argentina. Em março, a inflação foi de 3,4%, com a carne bovina subindo 6,9%. O consumo de carne bovina caiu cerca de 10% no primeiro trimestre, atingindo o menor nível em duas décadas.
Segundo o especialista Victor Tonelli, o consumo total de carnes na Argentina é de 115 a 116 quilos por pessoa ao ano, incluindo 51 quilos de frango, 45 quilos de carne bovina e 19 a 20 quilos de carne suína. A carne bovina, que já foi consumida na média de 82 quilos por habitante há 60 anos, agora perde espaço para outras proteínas.
Projeto não foi criado por causa da crise
Julio Cittadini afirma que o projeto "Burros Patagônicos" não foi concebido como resposta à crise econômica, mas sim devido às dificuldades da pecuária na Patagônia, como clima rigoroso e predadores. "O burro é mais resistente ao meio ambiente daqui", explicou. Atualmente, ele mantém cerca de 150 burros e planeja expandir o rebanho.
O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que o consumo de carne de burro não é habitual, mas também não é proibido, e não há registro de exportação.
Cenário econômico e perspectivas
A economia argentina enfrenta uma profunda mudança estrutural, segundo o economista Ricardo Arriazu. Setores como energia e mineração geram divisas, mas não absorvem mão de obra, enquanto indústria e comércio retrocedem. A inflação de março foi o principal fator de preocupação do governo, que busca controlar os preços.
O presidente Javier Milei pediu paciência à população, afirmando que a situação vai melhorar. O Banco Mundial prevê crescimento de 3,6% em 2026 e 3,7% em 2027, mas o economista Arriazu alerta para o crescimento desigual.
Enquanto isso, a carne de burro em Trelew segue despertando curiosidade, seja como alternativa econômica ou como novidade gastronômica. A experiência revela como mudanças econômicas podem influenciar hábitos profundamente enraizados na cultura alimentar argentina.



