Quarenta anos após o desastre de Chernobyl, o maior acidente nuclear da história, o temor de uma nova catástrofe ganha força diante de duas guerras em curso. Muito perto das frentes de combate entre Rússia e Ucrânia, a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, vive dias de tensão. Ao menos duas vezes neste mês de abril, as instalações ficaram completamente sem energia.
Tensão em Zaporizhzhia
No dia 14, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que a central nuclear de Zaporizhzhia ficou sem energia externa pela décima terceira vez desde o início do conflito. “Os geradores a diesel de emergência foram imediatamente ativados para fornecer a energia necessária para o funcionamento essencial das funções de segurança”, disse a AIEA em comunicado.
Ao mesmo tempo, instalações nucleares no Irã estão no centro das tensões citadas por EUA e Israel para iniciar uma guerra contra Teerã. Ambas as situações levantam a questão: existe a chance de testemunharmos um desastre nuclear de grandes proporções?
Diferenças cruciais entre Chernobyl e os reatores modernos
Vale notar que as circunstâncias do desastre de 1986 são bastante diferentes dos riscos que a AIEA enxerga hoje. Chernobyl ocorreu em tempos de paz, fruto de falhas de projeto, pressões indevidas e erros dos operadores. “Não é correto dizer que qualquer reator pode explodir como Chernobyl”, afirma Renato Cotta, professor da UFRJ. “Essa combinação de fatores não está presente nos reatores modernos, reduzindo drasticamente a probabilidade de um evento semelhante hoje, embora não elimine o risco de acidentes graves em cenários extremos, como guerras.”
Os quatro reatores de Chernobyl eram do modelo RBMK. Já os seis reatores de Zaporizhzhia pertencem à família VVER. Por coincidência, os reatores no Irã também são VVER. Ambos os modelos têm origens comuns no Instituto Kurchatov, mas são radicalmente diferentes.
Reatores VVER: mais seguros e estáveis
O VVER é um reator de água pressurizada, que utiliza água para refrigeração e moderação. Possui coeficiente de vazio negativo, tornando-o mais estável e previsível. “Zaporizhzhia utiliza seis reatores VVER-1000, que apresentam coeficiente de reatividade negativo, ou seja, tendem a se autoestabilizar. Além disso, contam com sistemas de resfriamento de emergência e uma estrutura de contenção em concreto armado”, explica Cotta.
Já o RBMK usa água para refrigeração e grafite para moderação, com coeficiente de vazio positivo e alto. Isso podia levar a instabilidades, especialmente em baixa potência. Além disso, não possuía estrutura de contenção robusta.
O desastre de Chernobyl: uma sequência de erros
Em 25 de abril de 1986, um teste de segurança mal planejado foi realizado no reator 4. A equipe noturna, sem preparo, iniciou a redução de potência, que caiu drasticamente devido ao “envenenamento do reator”. Para aumentar a reatividade, retiraram a maior parte das barras de controle, deixando o reator instável.
À 1h23min40s, o operador apertou o botão AZ-5, que insere todas as barras de controle. Porém, as pontas de grafite das barras deslocaram a água, acelerando a reatividade antes de reduzi-la. Seguiu-se uma explosão de vapor, possivelmente seguida por explosão de hidrogênio e incêndio prolongado do grafite.
O teto da usina, sem proteção extra, foi arrancado. Testemunhas viram uma luz azulada no céu enquanto a radiação se espalhava. O incêndio, que demorou dias para ser extinto, lançou uma nuvem radioativa que atingiu boa parte da Europa.
Consequências e lições
As autoridades soviéticas evacuaram Pripyat apenas no dia 27 de abril. Ao todo, 116 mil pessoas foram retiradas da zona de exclusão, onde permanecem sem poder retornar. O número de vítimas é incerto: a ONU estima até 4 mil mortes precoces. Cerca de 600 mil “liquidadores” trabalharam para conter o incêndio e criar o sarcófago de concreto.
Zaporizhzhia e Fukushima: riscos diferentes
Em Zaporizhzhia, um acidente grave seria mais semelhante ao de Fukushima (2011), classificado como grau 7 pela AIEA. “O combustível pode fundir, mas o edifício de contenção limita a liberação de material radioativo”, afirma Cotta. Fukushima foi causado por um terremoto seguido de tsunami que danificou os geradores a diesel, levando à fusão do núcleo.
No Irã, a AIEA teme que bombardeios possam causar liberação localizada de material radioativo. “No entanto, não é provável reproduzir um cenário como Chernobyl, também pelas diferenças entre os reatores”, conclui Cotta. Em contexto de guerra, as redundâncias de segurança são reduzidas, aumentando o risco sistêmico.



