Mais de 20 mil ocupam campo de tiro militar na França para mega-rave ilegal
20 mil ocupam campo de tiro militar na França para rave

Mais de 20 mil pessoas ocupam neste sábado (2) um campo de tiro do Exército francês perto de Bourges, no centro da França, transformado em uma 'free party' marcada por riscos de munições da Primeira Guerra Mundial e acesso proibido até para moradores locais. As autoridades alertam para explosivos enterrados e reforçam o aparato de emergência.

Festa em área militar de alto risco

O evento, totalmente ilegal, ocorre em uma área militar classificada como 'muito perigosa' devido à presença de munições antigas e testes regulares de armamento pesado. No vilarejo de Bengy, a apenas um quilômetro e meio em linha reta do terreno militar de Cornusse, as batidas graves fazem tremer as paredes das casas. Anne, proprietária de uma hospedaria local, relatou à Franceinfo que conversou com equipes da proteção civil que usarão seu espaço para tomar banho quente e descansar.

'Nem nós, moradores, temos o direito de ir lá. Não podemos passear com o cachorro, não podemos atravessar esses campos. Toda semana há tiros, testes do canhão Caesar, testes de míssil. A gente escuta explodir como se estivesse na Ucrânia', afirmou Anne.

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Multidão cresce apesar dos alertas

A multidão continua a aumentar, e a festa iniciada na sexta-feira avança sem incidentes graves, segundo a prefeitura, que insiste nos pedidos de prudência. As autoridades contabilizavam 20 mil participantes na manhã deste sábado, mas muitos outros seguem chegando para a noite, considerada o ponto alto do 'Teknival 2026'. Para parte dos jovens, trata-se tanto de celebrar quanto de protestar contra o endurecimento das regras que visam coibir raves ilegais.

Desde sexta-feira, o terreno militar transformou-se em um mar de tendas, vans e veículos espalhados por um campo imenso. Em frente aos paredões de som, jovens de roupas coloridas dançam sem parar. A paisagem rural foi tomada por uma cidade efêmera. Em Cornusse, pequeno vilarejo a menos de 2 km do local, o vento favorável reduziu o impacto sonoro, e a principal preocupação passou a ser logística: lixo, circulação e acolhimento de visitantes.

A prefeita de Cornusse, Édith Raquin, disse à Franceinfo que a convivência tem sido surpreendentemente cordial. 'Houve muitas conversas, inclusive com idosos que não entendem muito esse tipo de festival, mas ficaram felizes em conversar com os jovens', afirmou.

Feridos por estilhaços e risco de explosões

Segundo a prefeitura, os serviços de emergência atenderam 12 feridos leves até a manhã de sábado. Durante visita ao dispositivo de segurança, o prefeito Philippe Le Moing Surzur mencionou ainda uma pessoa atropelada por um veículo. Quarenta e cinco bombeiros e 30 socorristas da proteção civil permanecem mobilizados, com capacidade de reforço.

O maior temor das autoridades é a presença de munições antigas. 'Precisamos estar preparados para o pior, e o pior seria a explosão de uma munição da Segunda Guerra Mundial', afirmou o prefeito. Estilhaços extremamente cortantes já feriram alguns participantes desde sexta-feira. Os organizadores publicaram nas redes sociais pictogramas pedindo que os teufeurs não acendam fogueiras, não cavem o solo e não recolham objetos. Ainda assim, parte dos feridos se machucou ao manipular fragmentos metálicos encontrados no terreno.

600 policiais militares mobilizados

Ao todo, 600 policiais militares foram posicionados em 14 pontos de controle ao redor da área, por onde os primeiros participantes chegaram ainda na madrugada de sexta-feira. As forças de segurança já registraram 32 autuações — a maioria por posse de drogas —, além de 26 infrações de trânsito e quatro prisões. Nenhuma força policial entra no terreno da festa, confirmam participantes ouvidos pela AFP, que descrevem o ambiente como 'muito, muito tranquilo'.

Um jovem de 22 anos, que pediu anonimato, admite ter ficado impressionado: 'Eu sabia que viria muita gente, mas, chegando aqui, é um choque ver tanta gente reunida no mesmo lugar.' Para sua amiga, de 19 anos, a presença massiva — com muitos estrangeiros — é 'um grande recado contra a repressão'.

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Munições enterradas e áreas proibidas usadas como banheiro

A prefeitura reforça que o terreno contém resíduos de munições. O campo de tiro funciona desde a Primeira Guerra Mundial, lembra Denis Durand, prefeito de Bengy. 'É um terreno militar criado em 1917. Houve testes durante a Primeira Guerra. Na época, ninguém se preocupava com cargas que não explodiram. Acho que há um perigo real', afirma. 'E estamos justamente em uma zona de tiros.'

Em condições normais, até os agricultores que cultivam terras próximas precisam de autorização do Exército para circular. Mas, neste sábado, centenas de teufeurs cruzam o campo de tiro a pé, sob o olhar de dois militares em uma pick-up branco. O prefeito ordenou que ninguém se aproxime das áreas arborizadas, consideradas de risco máximo. Porém, como não há banheiros no teknival, é justamente para esses bosques que os participantes se dirigem para fazer suas necessidades.

A prefeita de Cornusse teme a chegada de ainda mais gente. 'Esperamos que outras pessoas cheguem ao longo do dia. Os primeiros festivaleiros, que chegaram na manhã de sexta, nos disseram que 2 de maio seria realmente o dia mais importante do encontro', afirmou à Franceinfo.

Organizadores esperam até 30 mil pessoas

Os organizadores estimam que o evento possa atingir 30 mil participantes no auge, vindos da França e de países vizinhos. Na sexta-feira, a prefeita de Cornusse relatou ter visto ingleses, alemães, holandeses, suíços, italianos, espanhóis e até ucranianos entre os recém-chegados. Enquanto isso, moradores como Anne seguem ouvindo as batidas que fazem vibrar suas janelas, observando a transformação de uma zona militar restrita em um dos maiores teknivals improvisados dos últimos anos — e temendo que, sob a música e a euforia, permaneça um risco invisível enterrado no solo desde 1917.