Suzane von Richthofen é nomeada inventariante do tio: entenda o caso e a lei
A Justiça de São Paulo nomeou Suzane von Richthofen, condenada por mandar matar os pais em 2002, como inventariante do espólio do médico Miguel Abdalla Netto, seu tio encontrado morto em janeiro dentro da casa onde morava no Campo Belo, Zona Sul da capital paulista. A informação foi confirmada nesta sexta-feira (6) pela defesa da empresária Carmem Silvia Gonzalez Magnani, prima do médico, que disputava com Suzane o direito de administrar os bens do tio.
Disputa pela herança e papel de inventariante
Miguel Abdalla Netto morreu aos 76 anos, solteiro, sem filhos e sem testamento. Pela lei de sucessão, a herança deve ser transmitida aos sobrinhos vivos — no caso, Suzane e o irmão dela, Andreas von Richthofen. O espólio inclui dois imóveis e um carro, avaliados em cerca de R$ 5 milhões. O médico era irmão de Marísia, assassinada junto com o marido, Manfred, em 2002, crime pelo qual Suzane, seu então namorado Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Cristian, foram condenados.
Ser inventariante é exercer uma função prevista em lei no processo de inventário, etapa que formaliza a sucessão dos bens de uma pessoa que morreu. Na prática, significa que Suzane passa a administrar e preservar o patrimônio do tio até que a Justiça conclua a partilha. Isso não a torna automaticamente herdeira, mas ela pode pedir esse direito no processo. Até lá, Suzane será responsável por gerenciar os imóveis, contas e o carro deixado por Miguel, sempre sob supervisão judicial, sem poder vender ou transferir nada. Ela também deverá prestar contas à Justiça sobre todos os atos praticados como administradora do espólio.
Recurso da defesa da prima e acusações
A defesa de Carmem Magnani disse que irá recorrer da decisão que colocou Suzane como inventariante. Em nota, a defesa afirmou que foi surpreendida com a decisão judicial antes do fim do prazo, que vai até 10 de fevereiro, para que fossem apresentados documentos que, segundo ela, comprovariam uma união estável entre Carmem e Miguel, negada por ele em vida. Miguel havia sido tutor de Andreas após o assassinato dos pais dos irmãos Richthofen, mas os dois romperam anos depois. O médico também havia contratado advogados para impedir Suzane de receber a herança de Marísia e Manfred. Em 2015, a Justiça declarou Suzane indigna e transferiu os R$ 10 milhões do patrimônio dos von Richthofen apenas para Andreas.
Nesta semana, Carmem registrou um boletim de ocorrência acusando Suzane de retirar sem autorização judicial bens da casa de Miguel, como um carro, uma máquina de lavar, um sofá e uma cadeira. Segundo o registro, documentos e dinheiro também desapareceram. A Polícia Civil investiga se houve invasão e furto na residência. A morte do médico segue em apuração: peritos trabalham com a hipótese de infarto, mas o caso ainda é tratado como suspeito. A prima de Miguel conseguiu autorização policial para liberar o corpo e realizar o sepultamento no interior de São Paulo. Suzane também foi à delegacia com o mesmo pedido, mas não foi autorizada porque chegou depois.
Contexto histórico e projeto de lei
O caso Richthofen remonta a 2002, quando o engenheiro Manfred von Richthofen, de 49 anos, e a psiquiatra Marísia, de 50, foram encontrados mortos na mansão onde moravam, também no Campo Belo. A polícia descobriu que Suzane havia mandado seu namorado à época, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Cristian, matarem o casal com golpes de barras de ferro. Os três tentaram simular um latrocínio, mas depois confessaram o crime e foram presos. O motivo seria a oposição dos pais ao namoro de Suzane com Daniel, além do interesse na herança da família. Em 2006, Suzane, Daniel e Cristian foram julgados e condenados pelos assassinatos.
Paralelamente, tramita na Câmara dos Deputados em Brasília o Projeto de Lei (PL) apresentado pelo deputado federal Fernando Marangoni (União Brasil‑SP). A proposta altera o artigo 1.814 do Código Civil para impedir que herdeiros condenados por crimes dolosos contra parentes de até terceiro grau, como tios e sobrinhos, recebam herança. Se aprovado, o texto pode atingir diretamente Suzane na disputa pelo patrimônio estimado deixado pelo tio.
Situação atual de Suzane e envolvidos
Suzane deixou a prisão em 2023 e passou a trabalhar com produção e venda online de chinelos, bolsas e pulseiras. Ela, que antes se chamava Suzane Louise von Richthofen, mudou o nome para Suzane Louise Magnani Muniz, adotado desde que se casou em 2023 com o médico Felipe Zecchini Muniz. Ambos têm 42 anos e moram em Bragança Paulista, interior paulista. Em 2024 tiveram um filho. Daniel saiu em 2018 e hoje, aos 44 anos, atua na customização de motos. Cristian foi solto em 2025 e trabalha com o irmão; ele tem 49 anos. A equipe de reportagem tenta contato com a defesa de Suzane. A advogada de Andreas afirmou em outras ocasiões que nem ela nem o cliente irão comentar o assunto.