Comissão da Verdade da UFPE revela extensão da repressão durante a ditadura militar
Um levantamento detalhado realizado pela Comissão da Verdade, Memória e Reparação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) identificou que pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos vinculados à instituição foram alvo de práticas autoritárias durante os 21 anos da ditadura militar, entre 1964 e 1985. Os dados parciais foram divulgados nesta terça-feira (31), data que marca os 62 anos do golpe militar que depôs o presidente João Goulart.
Violência sistemática contra a comunidade acadêmica
Das pessoas identificadas como alvo na UFPE, 403 sofreram algum tipo de violação direta. O relatório documenta casos graves incluindo:
- Seis mortes confirmadas
- 156 prisões registradas
- 60 pessoas torturadas
- 26 sequestros documentados
- 35 alunos desligados dos cursos
- 10 demissões, exonerações ou dispensas de professores
A pesquisa, que ainda deve continuar por mais três anos, analisou documentos históricos que revelam vestígios das práticas autoritárias contra a comunidade acadêmica pernambucana. Segundo os organizadores, este é o mais completo levantamento já realizado sobre o impacto da ditadura em uma universidade brasileira.
Perfil das vítimas e áreas mais afetadas
A maior parte dos afetados estava vinculada às áreas de Ciências Sociais Aplicadas, especialmente o curso de direito, e à área de saúde, com destaque para medicina. Em termos demográficos:
- 71% das vítimas eram homens
- 74% dos casos envolviam alunos (contra 26% de professores)
- Os centros mais impactados foram Faculdade de Direito (119 nomes) e Faculdade de Medicina (99 nomes)
Além das violações diretas, a Comissão identificou 247 outras pessoas listadas em ofícios encaminhados à UFPE que pediam informações sobre elas, indicando um monitoramento ainda mais amplo do que o inicialmente estimado.
Histórias pessoais de resistência e sofrimento
O advogado Marcelo Santa Cruz, que integra a Comissão da Verdade da UFPE, viveu na pele a repressão. Quando estava no 4º ano da Faculdade de Direito em 1969, foi cassado e precisou sair do curso. Seu irmão, Fernando Santa Cruz, era membro da Ação Popular no Rio de Janeiro e se tornou um dos desaparecidos políticos do regime, capturado em 23 de fevereiro de 1974 sem que seu corpo jamais fosse encontrado.
"A violência era tão grande quando a gente foi cassado, que os próprios estudantes da faculdade tinham medo de se aproximar da gente, para também não serem punidos. Então, criou um clima de terror muito grande", relatou Marcelo em entrevista.
Mecanismos de repressão institucionalizados
Os alunos cassados enfrentavam punições severas e sistemáticas:
- Proibição de se aproximar da universidade (mínimo de 300 metros do campus)
- Impedimento de matrícula em qualquer instituição de ensino do Brasil
- Punições que duravam até três anos
- Perseguição que se estendia mesmo para quem tentava estudar no exterior
Somente na turma de Marcelo Santa Cruz, quatro alunos foram cassados simultaneamente em setembro de 1969. Quando alguns tentaram continuar os estudos em Portugal, a universidade estrangeira foi notificada pela ditadura brasileira e desvinculou todos os brasileiros perseguidos em apenas oito meses.
Impacto duradouro e necessidade de memória
A Comissão também documentou 18 casos de sanções administrativas como perda de bolsas, impedimento para assumir cargos de chefia, desligamento de residência e não contratação de profissionais. Entre os professores, cinco tiveram direitos cassados e 13 foram aposentados compulsoriamente. Um reitor renunciou ao cargo sob pressão direta do regime.
O Monumento Tortura Nunca Mais, localizado na Praça Padre Henrique no Centro do Recife, serve como lembrança permanente dos mortos e desaparecidos políticos durante este período sombrio da história brasileira. A pesquisa da UFPE reforça a importância de preservar esta memória para que as violações aos direitos humanos nunca se repitam.
Marcelo Santa Cruz só conseguiu retomar seus estudos em 1972, em uma faculdade particular do Rio de Janeiro, formando-se dois anos depois. Sua história, como a de centenas de outros acadêmicos pernambucanos, ilustra o custo humano duradouro da repressão política e a resiliência daqueles que buscaram reconstruir suas vidas após anos de perseguição sistemática.



