Suásticas decoraram Palácio do governo da Paraíba por 60 anos; ladrilho está em museu
Suásticas em palácio da PB por 60 anos; ladrilho em museu

Suásticas decoraram Palácio do governo da Paraíba por 60 anos; ladrilho está em museu

Uma peça do piso com suásticas que adornou o Palácio da Redenção, sede oficial do governo da Paraíba por quase 200 anos e hoje transformado no Museu de História da Paraíba, está atualmente em exibição no Museu da Cidade de João Pessoa. Em entrevista ao g1, o responsável pelo museu, Iam Dantas, explicou que a exposição "surgiu de uma necessidade" de contar essa parte da história local.

História controversa e exposição atual

O então Palácio da Redenção teve o piso com suásticas gravadas por quase 60 anos, entre as décadas de 1930 e 1990. A decoração foi instalada em 1937, durante o mandato do governador Argemiro de Figueiredo, época em que o regime nazista de Hitler estava estabelecido na Alemanha. As peças só foram retiradas durante o governo de Antônio Mariz, em 1995.

Iam Dantas, responsável pelo museu de João Pessoa administrado pela Secretaria de Cultura do Governo Estadual, afirmou que apenas um ladrilho está em exibição no local. O restante das amostras está guardado, sem previsão de exibição, no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep-PB). "Como o espaço não foi contemplado no Museu de História da Paraíba, se foi pensando que deveria ser contado em algum lugar e surgiu a necessidade de expô-lo no museu da cidade", disse ele.

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Debate sobre a memória histórica

Sobre o motivo de exibir uma peça que remete ao regime nazista, retirada do piso após reclamações de historiadores na década de 1990, Dantas argumentou que o "fato faz parte da história da cidade" e, portanto, "por que não exibi-la?". Ele questionou: "A pergunta deveria ser o oposto: por que não exibi-la? Esse evento faz parte da história da nossa cidade e é um fato que não pode ser apagado. É uma memória preservada em um objeto material".

A exposição das peças em um museu é uma promessa feita há 29 anos pelo então governador Antônio Mariz, que ordenou a retirada do piso por se sentir incomodado com as suásticas no caminho para seu gabinete. Mariz defendeu que "o Palácio da Redenção não poderia ser vitrine de nenhum pensamento ideológico". No ano passado, com a inauguração do Museu de História da Paraíba no antigo palácio, havia expectativa de exibir o material lá, mas isso não se confirmou.

Origens e contexto histórico das suásticas

Construído em 1586, o Palácio da Redenção serviu como residência oficial do governador e sede do poder executivo estadual. Durante uma reforma na década de 1930, mesma época da ascensão da Alemanha Nazista, foram instalados os ladrilhos com suásticas.

Há várias versões sobre a instalação. O historiador José Octávio de Arruda Melo, em seu livro "Os Italianos na Paraíba", discute que os ladrilhos foram colocados durante reformas do governador Argemiro de Figueiredo. Inicialmente, alegou-se que representavam suásticas gregas, sem ligação com o nazismo, mas em edições posteriores, o historiador reconsiderou, destacando que o arquiteto Giovanni Gioia, responsável pela instalação, era partidário do fascismo italiano e da aliança com a Alemanha de Hitler.

A historiadora Loyvia Almeida explica que, embora as suásticas tenham origens antigas em culturas como a indiana e chinesa, Hitler se apropriou do símbolo. Ela não acredita que as suásticas do palácio sejam referentes ao símbolo pré-nazista, pois, apesar de não estarem no ângulo de 45 graus típico, refletiam a ascensão do nazismo globalmente na época.

Retirada e destino dos ladrilhos

O governador Antônio Mariz ordenou a retirada dos ladrilhos em fevereiro de 1995, no segundo mês de seu governo. Ele argumentou que o elemento decorativo não pertencia à composição original do palácio e foi adicionado posteriormente. Cerca de 90 metros de mosaicos foram removidos.

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Em entrevista à época, Mariz reiterou que "o Palácio da Redenção não pode ser vitrine de nenhum pensamento ideológico" e expressou desconforto ao ver o símbolo nazista no acesso ao seu gabinete. Os ladrilhos foram inicialmente guardados na Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento do Estado (Suplan), com planos de serem levados a um museu, o que só se concretizou parcialmente agora com a exibição de um ladrilho em João Pessoa.

Esta exposição serve como um lembrete material de um capítulo complexo da história paraibana, incentivando reflexão sobre como sociedades preservam e interpretam seu passado controverso.