Salvador há 100 anos: uma cidade em transformação radical
Imagine uma Salvador onde aviões decolavam do mar, o transporte público era dominado por bondinhos elétricos, apenas uma única avenida cortava toda a cidade e a população era 89% menor do que a atual. Essa realidade, que parece distante, era exatamente o cenário da capital baiana entre 1910 e 1930, período crucial de modernização da cidade que completa 477 anos.
A primeira avenida: Sete de Setembro
Um marco fundamental dessa época foi a Avenida Sete de Setembro, inaugurada em 1915 como a primeira via desse tipo no município. Com 4,6 km de extensão, ligando a Praça Castro Alves ao Farol da Barra, passando pelo Campo Grande e Corredor da Vitória, ela representava mais do que uma simples obra de infraestrutura.
"O intuito também era deixar a cidade mais bonita, no ponto de vista das construções e do arruamento. As ruas eram muito tortas e estreitas, queriam alargar e endireitar. Era um período de mudanças. A República queria trazer coisas novas do ponto de vista urbano", explica o historiador Jaime Nascimento.
Hoje, segundo a Transalvador, essa mesma via registra fluxo diário superior a 10 mil veículos apenas no trecho da orla - um contraste impressionante com o passado, quando circulavam poucos automóveis e bondes.
Transporte: dos bondes aos hidroaviões
O sistema de transporte da Salvador do início do século XX era verdadeiramente peculiar. Os bondes, inicialmente puxados por burros e depois eletrificados, foram o principal meio de transporte público entre o século XIX e 1961, tornando a cidade referência nesse modal.
Mas a verdadeira curiosidade eram os hidroaviões. Antes mesmo de possuir um aeroporto convencional, Salvador contava com o Hidroporto da Ribeira, inaugurado em 1939 na Península Itapagipana. Este terminal aéreo marítimo permitia que aeronaves decolassem e pousassem sobre as águas, sendo acessível apenas à elite econômica da época.
"Precisava ter uma pista grande e lá era uma região que estava crescendo, tinha espaço sobrando e era distante. E também por se criar a base aérea na mesma região. Para a Aeronáutica, era melhor", detalha Nascimento sobre a transição para o aeroporto terrestre.
Crescimento populacional e desigualdades
Entre 1920 e 2022, Salvador experimentou um crescimento demográfico extraordinário: de 283.422 para 2.417.678 habitantes, segundo dados do IBGE. Porém, esse desenvolvimento não foi acompanhado por igualdade no acesso aos serviços básicos.
A energia elétrica e a telefonia eram considerados luxos restritos aos mais abastados. Prédios importantes como o extinto Teatro São João e a Igreja do Senhor do Bonfim destacavam-se por terem iluminação elétrica, enquanto muitas residências periféricas ainda usavam velas até as décadas de 1970-1980.
Os telefones fixos só se popularizaram nos anos 1990. Antes disso, era comum a prática de aluguel de linhas telefônicas, com pessoas que mantinham múltiplas conexões para revenda. "Tinha gente que vivia de alugar, que tinha 10 linhas telefônicas alugadas. A pessoa pagava a ela para ter o telefone instalado em casa e pagava a conta", relata o historiador.
Do orelhão ao celular: evolução tecnológica
A chegada dos orelhões em 1972 representou um avanço na democratização das comunicações, criando inclusive uma economia paralela com a venda de fichas. Porém, a popularização dos celulares nas últimas décadas tornou esses equipamentos obsoletos, culminando no anúncio de remoção total dos orelhões até 2026.
O aeroporto, que começou como campo de pouso antes da Segunda Guerra Mundial, passou por diversas transformações - de Aeródromo de Santo Amaro do Ipitanga a Aeroporto Dois de Julho e, finalmente, Aeroporto Luis Eduardo Magalhães. Modernizado em 2019, hoje o Salvador Bahia Airport recebe aproximadamente 20 mil passageiros em mais de 120 voos diários.
Essa jornada de um século revela como Salvador se transformou de uma cidade com características quase provincianas para uma metrópole moderna, mantendo porém suas contradições entre desenvolvimento e desigualdade social.



