Irã antes da Revolução de 1979: contrastes entre modernidade ocidental e violência monárquica
Imagens históricas do Irã antes da Revolução de 1979 revelam um país com aparência moderna e influência ocidental, onde mulheres usavam minissaias nas grandes cidades – um cenário radicalmente diferente do atual, onde a polícia de costumes reprime violentamente quem se recusa ao véu. Contudo, essa faceta liberal escondia uma realidade sombria: uma monarquia absolutista violenta que governava sobre uma população majoritariamente pobre.
"Esse mesmo governo do xá, que tem essa imagem liberal, essa imagem de ter sido um governo tolerante, é governo que tinha a polícia política, que tinha prisões, que tinha torturas, que tinha centros de tortura em que pessoas desapareciam", destaca o historiador Filipe Figueiredo, especialista em política internacional.
A dinastia Pahlavi e o controle do poder
A dinastia Pahlavi assumiu o poder através de um golpe militar há exatamente um século. O primeiro monarca, avô do atual candidato ao trono, permaneceu no comando até a Segunda Guerra Mundial. Localizado em uma posição geográfica estratégica – entre a União Soviética e o Império Britânico –, o Irã foi ocupado por ambas as potências durante o conflito mundial.
Os britânicos mantinham um interesse particular: o acesso ao petróleo iraniano, que foi ameaçado em 1951 quando os iranianos elegeram um líder social-democrata comprometido com a nacionalização do recurso. "Os iranianos elegem um líder social-democrático que vai buscar a nacionalização do petróleo como meio de garantir o desenvolvimento do país, como meio de garantir divisas para o desenvolvimento e industrialização do Irã", explica Figueiredo.
Dois anos depois, com apoio britânico, o xá Mohamed Reza Pahlevi deu um golpe e depôs o primeiro-ministro democraticamente eleito. "Como consequência desse golpe, nós vamos ter uma concentração de poderes na mão da monarquia, na mão do xá", completa o historiador.
A Revolução Islâmica e a fragmentação do poder
As recentes cenas de celebração pela morte do aiatolá Ali Khamenei remetem às comemorações de 1979, quando uma revolução multissetorial – unindo esquerda, democratas e religiosos – depôs o xá Reza Pahlevi. Nos primeiros anos, o poder permaneceu fragmentado, como evidenciado pela tomada da embaixada americana por estudantes que fizeram dezenas de reféns.
O professor Paulo Hilu, coordenador do núcleo de estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), esclarece: "A república islâmica, embora tenha sido declarada em 1979, só é efetivamente consolidada em 1982". Foi quando o aiatolá Khomeini se tornou líder supremo, uma figura com poder sobre as forças armadas, enquanto o presidente eleito precisava da aprovação do clero para concorrer.
"O presidente governa. Ele decide os ministérios, qual vai ser a política, a política pública de saúde. Só que o presidente não controla as Forças Armadas, que é um elemento fundamental do poder", detalha Hilu sobre a complexa estrutura de poder iraniana.
O regime de Khamenei e a repressão interna
Com a morte de Khomeini em 1989, assumiu o aiatolá Ali Khamenei, que faleceu nos ataques deste sábado após quase 50 anos no poder. Seu governo se caracterizou pela oposição à hegemonia americana e israelense na região, ao mesmo tempo em que criava inimigos internos através de repressão violenta.
"A repressão política existia, porém, a grande diferença para o regime pós-1979 e especialmente para o Irã pós-guerra com o Iraque, pós-1988, certamente, é a violência de gênero", aponta Figueiredo, referindo-se especialmente à violência contra mulheres.
A morte da jovem curda Mahsa Amini em 2022, espancada por se recusar a usar o véu, desencadeou uma série de protestos no país. A repressão brutal aos manifestantes, com milhares de mortos, pode explicar as celebrações pela morte de Khamenei.
O futuro do Irã e a possível volta da monarquia
Quase cinquenta anos após a revolução, o príncipe Reza Pahlavi – filho do último xá – anunciou sua disposição para liderar uma transição de poder. Em mensagem gravada após os bombardeios, declarou: "A ajuda que o presidente dos estados unidos da américa prometeu ao bravo povo iraniano acaba de chegar", posicionando-se como alternativa para o país.
Contudo, especialistas consideram esse cenário improvável. "Essa comunidade da diáspora é uma grande apoiadora da família da dinastia Pahlavi. Já dentro do Irã, a situação é mais multifacetada. O apoio a ele já não é tão grande assim", explica Figueiredo sobre o apoio principalmente externo à monarquia.
Hilu complementa: "Na verdade, o príncipe não é nenhuma alternativa, ele representa justamente esse descrédito geral das figuras políticas dentro do Irã. Tendo dito isso, ele voltar sobre bombas americanas israelenses e tanques americanos israelenses, obviamente, não vai garantir com ele nenhuma legitimidade".
O país, com quase 100 milhões de habitantes e diversas etnias e religiões, enfrenta agora uma encruzilhada similar à de 1979. "Existem pessoas que batalham para isso. Você tem grandes pensadores políticos, você tem grandes atores políticos, você tem pessoas que atuaram, inclusive, dentro da própria estrutura da república islâmica, que tentaram efetivamente levar a uma direção mais democrática", comenta Hilu sobre as possibilidades de transição.
Entre a memória do regime do xá, a repressão da república islâmica e uma sociedade marcada por divisões profundas, o Irã busca um caminho que evite tanto a ditadura religiosa quanto o retorno a uma monarquia absolutista, enquanto setores da sociedade civil lutam por um regime verdadeiramente inclusivo e democrático.



