Estudo revela que Goiânia apagou memória do acidente com Césio-137 após quase 40 anos
Goiânia apagou memória do Césio-137, revela pesquisa

Pesquisadora revela processo de apagamento da memória do Césio-137 em Goiânia

Quase quatro décadas após o grave acidente com Césio-137 que marcou Goiânia, um estudo acadêmico aponta que a cidade passou por um processo sistemático de apagamento da memória da tragédia. A pesquisa foi desenvolvida pela professora Célia Helena Vasconcelos durante seu mestrado na Universidade Federal de Goiás (UFG) em 2019, trazendo à tona questões fundamentais sobre como sociedades lidam com traumas coletivos.

Testemunha ocular que se tornou pesquisadora

Célia Vasconcelos tinha uma conexão pessoal profunda com o acidente. Ela morava a aproximadamente 100 metros do ferro-velho onde a cápsula radioativa foi aberta, no Setor Aeroporto, e acompanhou desde o início todo o desenrolar da contaminação na região. "Foram pessoas que nós conhecemos. Eu vi todo o desenrolar desde o início, a limpeza, a demolição das casas e a retirada dos moradores", relata a pesquisadora.

Na época do acidente, Célia tinha apenas 18 anos, estava grávida de sete meses e já era mãe de uma criança pequena. Ela passou por monitoramento constante devido ao risco de contaminação, uma experiência que marcaria profundamente sua trajetória. Formada em Letras, ela direcionou seu mestrado na área de linguística justamente para analisar como o episódio foi sendo silenciado ao longo do tempo. "É uma história pessoal que acabou se entrelaçando com a minha pesquisa. Foi isso que me levou a estudar o tema", explica.

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O apagamento físico e simbólico

Durante o desenvolvimento da pesquisa, Célia percebeu que havia pouquíssimos registros visíveis da tragédia espalhados pela cidade. A constatação veio quando ela tentou mapear referências físicas do acidente. "Rodei Goiânia inteira e não encontrei praticamente nada. Nem placas, nem memoriais, nem referências nos locais onde tudo aconteceu", relata com preocupação.

O estudo identificou que o apagamento da memória também se manifestou em mudanças simbólicas significativas na cidade:

  • A antiga Rua 57-A, no Setor Central, passou a se chamar Rua Paulo Henrique de Andrade
  • A Rua 26-A, onde ficava o ferro-velho de Devair (um dos principais pontos de contaminação), foi renomeada para Rua Francisca da Costa Cunha (Tita)

Para a pesquisadora, essas alterações contribuem diretamente para o silenciamento da história, já que o acidente está associado às denominações antigas, que deixam de ser reconhecidas com o passar do tempo. "Quando você tira o nome de uma rua, você também tira a história que aconteceu ali. Foi um apagamento completo", afirma Célia.

Locais históricos sem sinalização

A pesquisa também destacou que pontos cruciais do acidente permanecem sem qualquer tipo de sinalização histórica:

  1. O antigo local do ferro-velho onde a cápsula foi aberta
  2. O Estádio Olímpico, onde ocorreram triagem e descontaminação em massa
  3. Outras áreas diretamente afetadas pela contaminação radioativa

Essa ausência de marcos físicos contribui para que o episódio vá gradualmente desaparecendo da memória coletiva da cidade.

Desconhecimento entre as novas gerações

Outro dado alarmante revelado pela pesquisa foi o profundo desconhecimento do acidente entre as novas gerações. Segundo Célia, muitos jovens não sabem o que foi o Césio-137 ou possuem apenas informações superficiais sobre o tema. "Se você conversa com pessoas de 30, 40 anos, a maioria não conhece a história. Nas escolas, pouco se fala sobre isso", lamenta a pesquisadora.

Esse fenômeno representa uma ruptura na transmissão da memória histórica, onde um dos maiores acidentes radioativos do Brasil corre o risco de cair no esquecimento apenas algumas décadas após sua ocorrência.

A memória que resiste

Apesar do apagamento observado em nível institucional e urbano, Célia afirma que as lembranças permanecem vivas para quem vivenciou diretamente a tragédia. "Ainda hoje é muito doloroso. Quando fui desenvolvendo o trabalho, muitas memórias foram voltando. A gente revive tudo", compartilha emocionada.

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Para a pesquisadora, manter o tema em debate é fundamental para a preservação da memória histórica e para evitar que episódios traumáticos como esse sejam completamente esquecidos. O estudo serve como um alerta sobre a importância de preservar marcos físicos e narrativas históricas, especialmente em relação a eventos que marcaram profundamente comunidades inteiras.

A pesquisa de Célia Vasconcelos representa um importante esforço acadêmico para documentar não apenas os fatos do acidente com Césio-137, mas também os processos sociais e urbanos que determinaram como essa tragédia seria (ou não) lembrada pelas gerações futuras em Goiânia.