Freixo revela em biografia detalhes íntimos do caso Marielle e trajetória política
Para Marcelo Freixo, a condenação dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes representa o fechamento de um período marcado por profunda dor e sofrimento. O político do PT, prestes a completar 59 anos, compartilha essas reflexões em sua nova biografia "Viver é perigoso – Minha travessia no Rio", que será lançada oficialmente neste sábado, dia 11 de abril de 2026.
Revelações sobre o julgamento e a amizade com Marielle
Logo nas primeiras páginas do livro, Freixo descreve com detalhes vívidos o "profundo mal-estar" que sentiu durante o julgamento dos ex-policiais envolvidos no crime. O político relata ter ficado "nauseado" com a frieza demonstrada por Ronnie Lessa, um dos executores do assassinato, que participou do processo por meio de um telão desde a Penitenciária de Tremembé.
"Parecia que ele estava tratando de um serviço corriqueiro, em um ramo de negócios qualquer", recorda Freixo no texto escrito em primeira pessoa. "De acordo com Lessa, eu não morri porque tinha seguranças, porque o impacto político da minha morte podia levar a uma caçada policial".
Processo de escrita e significado pessoal
Em entrevista exclusiva, Freixo conta que o livro começou a ser escrito há quatro anos e foi concluído antes da condenação dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão e do ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa, ocorrida em fevereiro deste ano. "Nesses quatro anos as coisas não paravam de acontecer, mas a gente precisava terminar", explica o político, que teve como coautor o jornalista Bruno Paes Manso.
O petista destaca a importância da amizade com Marielle Franco: "Foram dez anos, e não dez dias de amizade com a Marielle, que, dentro de um projeto político, era a pessoa em que eu mais acreditava. Foi muito difícil chegar aos mandantes da sua morte, houve muita destruição de prova. Cheguei a duvidar que haveria um final. Então, vivo o encerramento de um ciclo de muita dor, embora o brilho da Marielle seja eterno".
Reflexões sobre o Rio de Janeiro e a política
Na biografia, Freixo faz uma análise contundente sobre o significado do caso Marielle para o estado do Rio de Janeiro. "Você tem dois irmãos, um deputado federal e outro membro de Tribunal de Contas, presos por serem os mandantes. E o chefe da polícia é preso por obstrução. Isso já diz muito, não sobre a Marielle, mas sobre o Rio de Janeiro", reflete o político.
O título do livro, inspirado em Guimarães Rosa, carrega um significado especial para Freixo: "O sentido de 'perigoso' no título é o de 'se arriscar'. A gente precisa retomar a política, ter espaços para diferença e para o diálogo. Esse é um livro de quem acredita no Rio".
Trajetória pessoal e política revelada
A publicação revela aspectos íntimos da vida de Freixo, desde sua infância como "moleque do Fonseca", bairro periférico de Niterói, até sua atuação como professor e defensor de direitos humanos. Um dos momentos mais dolorosos abordados no livro é a morte do irmão Renato, assassinado por milicianos em 2006, quando Freixo estava em sua primeira campanha para deputado estadual.
"Minha primeira ação, no dia em que assumi o cargo de deputado, foi pedir a abertura de uma CPI para investigar as milícias. Meus colegas de Assembleia deram risada, desdenharam. Eles me consideravam ingênuo", relembra o político sobre seu início na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Relações políticas e bastidores revelados
A biografia também traz à tona relações políticas surpreendentes, como a boa relação mantida com o ex-presidente da Alerj Jorge Picciani, apesar das diferenças ideológicas. Freixo revela que chegaram a assinar projetos de lei juntos, incluindo uma proposta para implementar scanners nas revistas em presídios.
"Havia um ambiente político capaz de pensar na sociedade", analisa Freixo sobre esse período, destacando a importância do diálogo entre posições diferentes no cenário político.
O lançamento do livro será marcado por uma celebração especial no Centro do Rio, com uma roda de conversa e apresentações de baterias de escolas de samba, refletindo a conexão do político com a cultura carioca e sua trajetória marcada por lutas políticas e pessoais.



