Historiador português analisa raízes profundas das guerras culturais e critica posturas da esquerda contemporânea
Em uma análise abrangente sobre os impasses das democracias modernas, o historiador e deputado português Rui Tavares lança luz sobre as chamadas guerras culturais, demonstrando que estes conflitos estão longe de ser uma novidade histórica. Em seu novo livro Hipocritões e oligarcas: Passado e futuro das guerras culturais, publicado pela Tinta da China em 2026, Tavares percorre séculos de disputas em torno de valores, identidades e narrativas que continuam a moldar a política atual.
Crítica à esquerda acadêmica e o abandono das emoções
Rui Tavares faz uma crítica contundente à esquerda acadêmica por desvalorizar temas fundamentais como identidade e religião. Segundo o historiador, existe uma tradição, especialmente de origem marxista, que privilegia excessivamente fatores econômicos, aproximando-se curiosamente de certos liberais que também enxergam o indivíduo principalmente como agente econômico.
"O problema central é ignorar completamente dimensões como identidade, narrativa e emoção", afirma Tavares. "A política não pode ser reduzida a mera técnica. Quando um campo político abandona deliberadamente as emoções, entrega esse espaço vital ao adversário — e perde capacidade de mobilização."
Esta análise ajuda a compreender o avanço de forças políticas mais radicais em diversos países, incluindo o Brasil. Para o historiador, as emoções funcionam como porta de entrada essencial para a vida em comunidade, e ignorá-las significa ceder terreno político de forma estratégica.
O fenômeno dos "hipocritões" e a autenticidade da mentira
Um dos conceitos centrais desenvolvidos por Tavares é o de "hipocritão", termo que ele utiliza para descrever políticos como Donald Trump. Diferente da hipocrisia tradicional, onde há contradição entre discurso e prática, os "hipocritões" assumem abertamente seus defeitos e transformam essa admissão em uma falsa autenticidade.
"Eles criam a figura do 'mentiroso honesto': alguém que mente, mas cuja mentira já é socialmente esperada e, portanto, aceita", explica o historiador. "Isso contrasta fortemente com políticos que ocultam informações ou dizem meias-verdades, o que geralmente gera maior desconfiança pública."
Tavares recorre a Aristóteles para fundamentar sua análise, lembrando que o filósofo já distinguia entre o político que omite (eirôn) e o que exagera (alazôn). O ideal democrático, segundo esta perspectiva, seria encontrar o meio-termo da franqueza — dizer a verdade sem ocultar nem exagerar.
Redes sociais e a economia da atenção
O historiador português argumenta que as redes sociais foram desenhadas de maneira que beneficia estruturalmente a extrema-direita. "Elas fazem parte de uma economia da atenção onde as plataformas são gratuitas porque o produto somos nós mesmos", alerta Tavares.
Segundo sua análise, estas plataformas capturam dados, vendem publicidade e exercem poder político de forma concentrada, com efeitos claros em processos democráticos ao redor do mundo, incluindo o Brasil e o Brexit. Neste ecossistema, Tavares identifica uma aliança perigosa entre "hipocritões" (políticos) e "oligarcas" (donos das plataformas), onde os primeiros evitam regular as redes e os segundos se beneficiam desta ausência de controle.
Inteligência Artificial: a nova bomba atômica?
Rui Tavares faz uma comparação impactante entre a inteligência artificial e a bomba atômica, argumentando que ambas representam mudanças profundas na história da humanidade. "A bomba tornou possível destruir o mundo; a inteligência artificial pode transformar radicalmente o trabalho e a estrutura social", afirma.
O historiador alerta para o desenvolvimento quase exclusivamente privado da IA, sem debate público suficiente e sem regulação global eficaz. "Países como o Brasil correm sério risco de ficar dependentes de tecnologias desenvolvidas externamente, sem capacidade adequada de regulação ou protagonismo neste campo estratégico."
Entre os riscos identificados estão:
- Desigualdade crescente no acesso às tecnologias
- Impactos profundos e disruptivos no mundo do trabalho
- Uso sem controle adequado de sistemas autônomos
- Inversão perversa onde a IA assume tarefas criativas enquanto humanos ficam com trabalhos repetitivos
Caminhos para uma democracia mobilizadora
Para enfrentar estes desafios complexos, Tavares propõe que a democracia precisa recuperar sua capacidade de mobilizar e dar sentido às conquistas coletivas. Ele defende a criação de "objetos de desejo político" — conquistas concretas que melhorem diretamente a vida das pessoas e que possuam quatro características fundamentais:
- Capacidade de captar atenção pública
- Potencial de mobilização coletiva
- Produção de mudança concreta e mensurável
- Criação de memória social duradoura
"Historicamente, objetivos como a redução da jornada de trabalho ou a conquista do direito ao voto mobilizaram movimentos sociais porque eram claros, alcançáveis e coletivos", exemplifica o historiador. "A política precisa voltar a oferecer horizontes desejáveis que entusiasmem e deem sentido à participação democrática."
Quanto à polarização, Tavares argumenta que um certo nível é saudável e necessário para sociedades democráticas, mas alerta para os perigos da polarização extrema, onde só se aceita vitória total ou derrota total. "O Brasil é um exemplo claro deste processo desde 2018, com disputas cada vez mais intensas e emocionalizadas, muitas vezes desconectadas de questões concretas do dia a dia", observa.
A solução, segundo o historiador, está em criar "polarizações positivas" em torno de temas relevantes que afetem diretamente a vida real das pessoas, deslocando o debate de questões emocionalmente intensas mas de baixo impacto real para discussões substantivas sobre o futuro coletivo.



