Moradora denuncia ataques constantes contra homem em situação de rua em Belém
Uma moradora da região onde um homem em situação de rua foi atacado com arma de choque por dois estudantes de direito em Belém revelou que as agressões contra a vítima são frequentes e vêm se intensificando desde o início de 2026. Segundo seu relato, grupos de jovens chegam em carros de luxo e praticam atos de violência, jogando bombinhas, garrafas e direcionando jatos de extintor de incêndio contra o homem vulnerável.
MPF abre investigação sobre ataque de estudantes
Nesta segunda-feira (13), o Ministério Público Federal (MPF) iniciou uma apuração formal para investigar o ataque cometido por dois estudantes do curso de Direito de uma faculdade particular contra o homem em situação de rua. De acordo com informações policiais, os agressores foram identificados como Altemir Sacramento Filho, apontado como autor material nas imagens, e Antonio Coelho, responsável por filmar a cena. A instituição de ensino confirmou que ambos foram afastados das atividades acadêmicas.
"Situação é corriqueira", afirma testemunha
A moradora, que prefere manter o anonimato, descreveu que as agressões começaram ainda em janeiro deste ano. Ela relatou que grupos de jovens vêm gravando vídeos de "trotes" e usando o homem em situação de rua como alvo para práticas criminosas. "Esse comportamento da vida do morador em situação de rua ser tratado como chacota em vídeo é corriqueiro, vem desde janeiro", afirmou a testemunha.
Moradora do bairro há aproximadamente dez anos, ela contou que na madrugada de 16 de fevereiro acordou assustada com estrondos que pareciam tiros. "Vi um carro branco avançando na via e, em seguida, pessoas no veículo jogando uma garrafa com líquido em direção ao homem em situação de rua", descreveu. No dia seguinte, segundo seu relato, os ataques se repetiram de forma ainda mais violenta.
"Naquele dia, os carros voltaram e os ocupantes começaram a rir, filmar com celulares e cobrir o rosto com roupas. Um rapaz desceu com um extintor de incêndio e passou a direcionar o jato em cima do homem, enquanto outras pessoas registravam a cena em vídeo", detalhou a moradora. Ela acrescentou que o homem em situação de rua tem problemas de saúde mental, mas não costuma causar transtornos com quem não o provoca.
Detalhes do ataque com arma de choque
O homem em situação de rua foi atacado com uma arma de choque em frente a uma universidade particular na avenida Alcindo Cacela. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram duas ocasiões em que um dos estudantes se aproxima da vítima, que caminhava de costas, e aplica descargas elétricas. Nas imagens, é possível ver os dois alunos participando da ação e rindo durante a agressão.
Segundo testemunhas, entregadores de aplicativo que passavam pelo local presenciaram a agressão e tentaram alcançar os suspeitos. Os estudantes correram para dentro do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), enquanto os trabalhadores foram atrás, mas não conseguiram entrar após serem impedidos por seguranças na portaria de forma hostil.
Posicionamento das autoridades
Em nota oficial, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Executiva de Direitos Humanos, informou que está acompanhando o caso e já acionou a Polícia Civil, além de ter notificado a instituição de ensino envolvida. "A Prefeitura ressalta que não compactua com qualquer tipo de violação de direitos e reforça que todas as medidas cabíveis estão sendo adotadas pelas autoridades competentes. A gestão municipal também informa que a pessoa em situação de rua já foi identificada", declarou o comunicado.
O Cesupa, por sua vez, lamentou o ocorrido e informou que adotou imediatamente medidas de colaboração com as autoridades policiais para a apuração dos fatos. Segundo a instituição, os estudantes envolvidos foram afastados de suas atividades acadêmicas e foi aberto um procedimento administrativo interno. O coordenador do curso de Direito acompanhou pessoalmente as providências na delegacia.
Investigações em andamento
O Ministério Público Federal determinou o envio de um pedido de informações à universidade para onde o suspeito teria retornado após o ataque, com prazo de 48 horas para resposta. Além disso, o MPF informou que fará uma representação criminal ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), que deverá apurar o caso na esfera penal.
Na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), a deputada Lívia Duarte (Psol) enviou ofícios ao MPPA cobrando providências da reitoria do Cesupa e também pediu abertura de inquérito criminal. A deputada classificou a agressão como lesão corporal ou tortura, humilhação e aporofobia (preconceito contra pobres).
"Segundo os relatos, o ato de violência gratuita teria sido perpetrado como parte de um jogo denominado 'verdade ou desafio', evidenciando um completo desprezo pela dignidade humana e pela integridade física de um cidadão em estado de extrema vulnerabilidade", argumentou a parlamentar em seus pedidos.
Até a última atualização, não havia informações sobre o estado de saúde da vítima. A Polícia Civil informou que o suspeito identificado como Altemir Sacramento Oliveira Filho foi apresentado pela Polícia Militar para prestar depoimento na Seccional de São Brás. Um boletim de ocorrência foi registrado e o caso segue em investigação.



