Vídeo emocionante de vaca salvando cachorros em enchente é falso e criado com IA
Um vídeo que tem emocionado milhares de pessoas nas redes sociais, mostrando uma vaca carregando quatro cachorros nas costas durante uma enchente, foi desmascarado como falso. A cena, que viralizou como um suposto símbolo de solidariedade animal em meio a desastres naturais, foi inteiramente fabricada utilizando inteligência artificial.
Como o conteúdo falso se espalhou
O vídeo começou a circular amplamente nesta sexta-feira (27) em plataformas como Instagram, Facebook e X, apresentando uma vaca marrom caminhando em uma rua completamente alagada enquanto transportava quatro cachorros em suas costas. A cena mostrava água quase alcançando as janelas das casas e carros parcialmente submersos, criando uma narrativa visual convincente de um cenário de desastre.
Muitas das publicações omitiram intencionalmente a informação de que se tratava de conteúdo gerado por IA, permitindo que a falsa história se espalhasse como verdadeira. O material circula desde pelo menos 20 de janeiro, mas ganhou novo impulso no início de fevereiro quando perfis com legendas em espanhol associaram o vídeo às fortes chuvas que atingiram a Colômbia.
Recentemente, o conteúdo ressurgiu em meio aos temporais que desde segunda-feira (23) causaram enchentes e deslizamentos na Zona da Mata de Minas Gerais, tragédia que já deixou mais de 60 mortos e milhares de desabrigados em cidades como Juiz de Fora, Ubá, Matias Barbosa, Cataguases e Tabuleiro.
Análise técnica comprova a falsificação
O projeto Fato ou Fake submeteu o vídeo a duas plataformas especializadas em detectar materiais fabricados com inteligência artificial, e ambas confirmaram a natureza sintética do conteúdo. A ferramenta Hive Moderation indicou 99,9% de probabilidade de a peça ser artificial, enquanto o Sight Engine apontou 99% de chances.
Esta última ferramenta sugeriu ainda que há grandes probabilidades de o vídeo ter sido criado utilizando o Sora, modelo da Open AI (mesma empresa responsável pelo ChatGPT) desenvolvido especificamente para gerar vídeos a partir de descrições textuais simples.
Entre as inconsistências visuais que denunciam a falsificação, destaca-se o súbito "crescimento" da pata dianteira esquerda de um dos cães durante a cena, um erro comum em conteúdos gerados por inteligência artificial que ainda não dominam perfeitamente a consistência de movimentos.
Rastreamento da origem do conteúdo falso
Para descobrir a origem do material, a equipe de checagem utilizou a ferramenta InVID para fragmentar o vídeo em vários frames (imagens estáticas) e, em seguida, realizou uma busca reversa por essas "fotos" no Google Lens. Esta técnica permite identificar se as imagens já haviam sido publicadas anteriormente na internet e em qual contexto.
A investigação revelou que em 20 de janeiro, um perfil do Facebook chamado "La gracia del Señor" postou o vídeo pela primeira vez, alcançando impressionantes 78 mil curtidas e 8,4 mil compartilhamentos. Curiosamente, a bio da conta já alertava, em espanhol: "Compartilho conteúdo de IA 100% original, não leve para o lado pessoal, vamos apenas ser felizes".
Outros resultados da pesquisa levaram a inúmeras publicações a partir de 4 de fevereiro no TikTok, Facebook, X e Instagram. Muitas dessas postagens, com legendas em espanhol, falsamente afirmavam se tratar da "gravação" de um episódio ocorrido durante cheias em Córdoba, na Colômbia, informação que também não corresponde à realidade.
O perigo da desinformação em momentos de tragédia
Este caso exemplifica como conteúdos falsos podem se espalhar rapidamente, especialmente durante situações de emergência e tragédias, quando as pessoas estão emocionalmente vulneráveis e mais propensas a compartilhar histórias que despertam sentimentos fortes.
A disseminação de informações falsas durante desastres naturais pode causar confusão, desviar a atenção de problemas reais e até prejudicar os esforços de ajuda às vítimas. Por isso, é fundamental que os usuários das redes sociais verifiquem a veracidade dos conteúdos antes de compartilhá-los, especialmente quando eles parecem extraordinários ou emocionalmente carregados.
As plataformas de checagem de fatos continuam desempenhando papel crucial no combate à desinformação, utilizando ferramentas tecnológicas avançadas para identificar conteúdos falsos e alertar o público sobre sua natureza enganosa.
