Polilaminina: pesquisadora desmonta fake news sobre tratamento experimental para lesão medular
Polilaminina: pesquisadora desmente fake news sobre tratamento

Polilaminina: pesquisadora desmonta fake news sobre tratamento experimental para lesão medular

Em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, a bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esclareceu diversos mitos e exageros que têm circulado sobre a polilaminina, substância experimental que vem sendo estudada para tratamento de lesões medulares. A pesquisadora, que lidera os estudos com a proteína, alertou para interpretações distorcidas que têm surgido nas redes sociais, onde a substância já foi apelidada de "proteína de Deus" devido ao seu formato em cruz.

Os principais mitos esclarecidos pela pesquisadora

"A cura definitiva foi encontrada"

Sampaio foi categórica ao desmentir o uso da palavra "cura" para as lesões medulares. A bióloga explicou que o termo é muito forte e que, no momento, o que existe é uma substância promissora, mas que a pesquisa ainda está em andamento. "Precisamos ser realistas sobre o que a ciência já demonstrou", afirmou a pesquisadora durante a entrevista.

"A polilaminina serve para qualquer tipo de lesão medular"

Embora muitos acreditem que a substância poderá ser utilizada em qualquer caso de lesão medular que resulte em perda de movimentos, Sampaio explicou que a polilaminina vem sendo estudada apenas para lesões nas fases:

  • Aguda: casos recentes, na primeira semana após a lesão
  • Subaguda: até três meses após a lesão

A pesquisadora destacou que ainda não há estudos suficientes para afirmar sua eficácia em lesões crônicas.

"A substância perdeu a patente internacional por falta de verba da UFRJ"

Sampaio corrigiu uma informação imprecisa que ela mesma havia divulgado anteriormente. Ela esclareceu que não houve falta de verbas, mas sim uma avaliação técnica da UFRJ que concluiu que os pedidos de patente não seriam concedidos nos Estados Unidos e na Europa. "A suspensão do pagamento ocorreu por uma decisão técnica de não arcar com custos altos por patentes que provavelmente seriam negadas", explicou, acrescentando que discordou da decisão.

"A laminina é cara"

A bióloga desmentiu que a laminina seria excessivamente cara. Ela explicou que não sabe exatamente qual será o custo de produção em larga escala pelo laboratório Cristália, mas usou sua experiência como pesquisadora para dar uma dimensão do valor. Quando ela comprava a laminina sintética de empresas que fornecem insumos para laboratórios de pesquisa, a quantidade suficiente para tratar um paciente custava entre 100 e 150 dólares — algo em torno de R$700.

"Todos pacientes que receberam polilaminina voltaram a andar"

Este é talvez o mito mais perigoso, segundo Sampaio. Ela esclareceu que nem todos os participantes do estudo voltaram a andar ou recuperaram completamente os movimentos. Os médicos utilizam uma escala chamada AIS que vai de A (lesão completa, sem movimento e sensibilidade) até E (recuperação total).

Quando ela afirma que 75% dos pacientes (6 de 8) tiveram melhora, quer dizer que essas pessoas saíram do nível "A" (paralisia total) e passaram a apresentar algum controle motor (nível "C"), mas a maioria ainda possui algum grau de paraplegia ou tetraplegia.

O caso de Bruno Freitas: contexto específico

A pesquisadora também esclareceu que o paciente Bruno Freitas, considerado o principal exemplo de sucesso da polilaminina — já que supostamente recuperou totalmente os movimentos dos braços e das pernas, voltando a caminhar —, é resultado de uma combinação de fatores específicos:

  1. Rapidez extrema no tratamento: ele recebeu a injeção de polilaminina apenas 24 horas após o acidente de carro, o que é muito raro na vida real
  2. Esforço contínuo de reabilitação: Bruno fez dois anos de fisioterapia intensiva e segue em reabilitação

Sampaio enfatizou que é importante contextualizar os resultados e não criar expectativas irreais em pacientes e familiares. "A ciência avança passo a passo, e precisamos comunicar com responsabilidade o que já sabemos e o que ainda precisamos descobrir", concluiu a pesquisadora.