BYD desmente fake news sobre contratação de 10 mil chineses para fábrica na Bahia
BYD desmente fake news sobre chineses na fábrica da Bahia

Narrativa falsa sobre "invasão chinesa" na Bahia é desmentida por dados oficiais

Vídeos e publicações que ganharam força nas redes sociais nos últimos dias propagam uma informação completamente falsa sobre a instalação do complexo industrial da BYD em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. Segundo essas narrativas enganosas, cerca de 10 mil trabalhadores chineses estariam sendo trazidos ao Brasil para ocupar empregos e formar uma espécie de "cidade chinesa" no local.

Como a fake news se espalhou

O conteúdo circula principalmente através de vídeos que mostram estruturas de grande porte sendo construídas, descritas erroneamente como o início de uma "cidade chinesa" em solo baiano. As publicações sugerem que milhares de estrangeiros estariam sendo levados para ocupar vagas que deveriam ser destinadas a trabalhadores locais, além de levantarem suspeitas infundadas sobre acordos entre autoridades brasileiras e a empresa.

Parte desse conteúdo foi amplificada por agentes políticos. Em um dos vídeos, o deputado estadual Leandro de Jesus (PL-BA) faz declarações alarmistas: "Olha aí o que o Lula, o Jerônimo estão fazendo aí com a Bahia. Entregando a Bahia pra China e um monte de chinês invadindo aí o nosso estado. A Bahia vai ser invadida pela China de vez".

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Outro vídeo com teor semelhante foi publicado pela comentarista Karina Michelin, do programa "Sem Rodeios", da Gazeta do Povo, reforçando a narrativa falsa de que haveria uma estrutura para abrigar milhares de estrangeiros.

A verdade sobre as contratações

A afirmação de que 10 mil chineses serão levados para Camaçari não possui qualquer fundamento. O número citado nas publicações se refere, na realidade, à estimativa de empregos que o projeto deve gerar — majoritariamente ocupados por brasileiros.

Em resposta ao "Globo", a BYD foi categórica: "Não. Essa informação é falsa. A BYD não vai trazer trabalhadores chineses em grande escala para Camaçari".

A empresa detalhou que:

  • Atualmente, o complexo conta com cerca de 3.200 trabalhadores brasileiros diretamente ligados à operação;
  • As obras são realizadas por empresas contratadas, que empregam cerca de 3.700 trabalhadores, também brasileiros;
  • Ao todo, já são aproximadamente 6.900 trabalhadores brasileiros no projeto;
  • Há previsão de abertura de mais 3.000 vagas, com prioridade para mão de obra local;
  • O total deve chegar a 10 mil trabalhadores brasileiros até 2026.

Ou seja, o número que circula nas redes foi retirado completamente de contexto: trata-se da projeção de empregos gerados, não de trabalhadores estrangeiros.

O que realmente está acontecendo em Camaçari

O que existe, de fato, é a implantação de um grande complexo industrial no local onde funcionava a antiga fábrica da Ford em Camaçari. A operação da montadora começou de forma gradual: a primeira das 26 instalações do complexo entrou em funcionamento em outubro de 2025, quando a empresa informou ter mais de 1,5 mil colaboradores.

Em dezembro, ao ultrapassar a marca de 2 mil trabalhadores, o presidente da companhia no Brasil, Tyler Li, afirmou que cada nova contratação representa "a oportunidade de gerar impacto positivo na vida das pessoas e no desenvolvimento de Camaçari e da Bahia".

A empresa também indica que novas vagas seguem sendo abertas atualmente, com candidaturas feitas por meio de canais como o SineBahia, o CIAT e plataformas digitais de recrutamento.

Posicionamento do governo da Bahia

O governo do estado da Bahia também reforçou que o projeto prevê prioridade para trabalhadores brasileiros, com regras contratuais estabelecidas: "De acordo com o contrato firmado entre o Estado da Bahia e a BYD, a empresa deve priorizar a contratação de mão de obra local necessária à implantação e operação da sua unidade industrial localizada em Camaçari, observando o percentual mínimo obrigatório de 70% de trabalhadores brasileiros".

O governo destacou ainda que, em 2025, a BYD registrou a geração de 4.409 empregos diretos e terceirizados em sua planta industrial, ultrapassando significativamente a meta contratual prevista para o período, que era de 3.500 postos de trabalho. Desse total, 93% é composto por mão de obra nacional.

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Denúncias trabalhistas descontextualizadas

Parte dos vídeos também associa o projeto a denúncias de trabalho análogo à escravidão. Esse ponto tem base em fatos reais, mas aparece descontextualizado nas publicações.

Em dezembro de 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que uma força-tarefa resgatou 163 trabalhadores em situação de vulnerabilidade no canteiro de obras e identificou 471 chineses trazidos de forma irregular ao país. Em junho do ano seguinte, o Ministério Público do Trabalho autuou a empresa por condições análogas à escravidão.

Após investigações e diligências, a BYD e empreiteiras firmaram um acordo judicial de R$ 40 milhões, com indenizações individuais e coletivas. Apesar dessas irregularidades, os episódios não têm relação com a narrativa atual de "invasão". As investigações tratam de condições de trabalho em obras específicas, e não de uma política de migração em massa.

Conclusão: narrativa sem base nos fatos

É completamente falso que 10 mil chineses serão levados para Camaçari em uma "invasão". O número citado nas redes sociais corresponde à estimativa de empregos gerados pelo projeto, majoritariamente destinados a trabalhadores brasileiros. Embora haja presença pontual de profissionais estrangeiros, como técnicos e engenheiros — prática comum em projetos industriais de grande porte — isso não configura migração em massa nem substituição da mão de obra local.

A narrativa viral distorce informações reais e cria um cenário alarmista sem qualquer base nos dados oficiais fornecidos tanto pela empresa quanto pelo governo do estado da Bahia.