Depoimento do funkeiro à Polícia Federal
Ryan Santana dos Santos, conhecido como MC Ryan SP, prestou depoimento à Polícia Federal (PF) e negou envolvimento em crimes financeiros. O artista declarou que sua renda mensal gira em torno de R$ 1,5 milhão, proveniente de fontes lícitas como patrocínios de casas de apostas legalizadas, shows, royalties de plataformas digitais e empresas próprias do ramo musical. A investigação apura um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 1,6 bilhão, ligado a apostas e rifas ilegais.
Detalhes das acusações
O funkeiro foi preso em 15 de abril, juntamente com outros artistas, como MC Poze do Rodo, e o dono da página Choquei, Raphael Sousa Oliveira, além de outras 29 pessoas. A defesa de Ryan, representada pelo advogado Felipe Cassimiro, não retornou o contato da reportagem até a publicação desta matéria. Em ocasiões anteriores, a defesa negou a prática de crimes por parte do artista.
No depoimento, Ryan afirmou que não tem conhecimento de movimentação de valores em espécie ou criptoativos em suas contas ou empresas. Ele negou a existência de movimentações bancárias ilícitas e garantiu que toda a movimentação é regularmente declarada à Receita Federal. Segundo ele, suas contas pessoais e empresariais seguem as obrigações fiscais, com entrega regular de declarações.
Estrutura financeira do cantor
Durante o interrogatório, o cantor detalhou sua estrutura financeira. Ele é proprietário de empresas ligadas à sua carreira, como a Bololo Records Entretenimentos, voltada ao agenciamento de artistas, a MC Ryan SP Produção Artística Ltda e uma holding patrimonial. Essas empresas concentram receitas de shows, publicidade e direitos autorais. Ryan declarou possuir imóveis avaliados em milhões de reais, incluindo a casa onde mora, apartamentos e uma chácara em Goiás, além de veículos de alto padrão, todos declarados no imposto de renda.
Questionado sobre movimentações financeiras suspeitas, afirmou não ter ciência de operações em espécie ou com criptoativos, como USDT, nem participação em grupos de mensagens voltados a remessas de valores. Negou práticas investigadas, como fracionamento de valores, uso de laranjas, compensações informais e transporte de dinheiro em espécie.
Transferências e microtransações
Sobre transferências de menor valor, explicou que, por questões operacionais bancárias, repassa quantias a colaboradores para pagamento de despesas de produção musical, como contratação de modelos e custos de gravação, funcionando como reembolso. Quanto ao volume de microtransações via Pix, atribuiu os valores a pagamentos por publicidade de apostas e transferências feitas por fãs. O cantor também admitiu usar contas de terceiros para realizar pagamentos, devido a limitações operacionais, mas negou qualquer relação com ocultação de recursos.
Ryan afirmou não se recordar de diversas empresas citadas no inquérito, ligadas a tecnologia, pagamentos, publicidade e consultoria, mas disse que algumas podem estar relacionadas a contratos de publicidade com casas de apostas. Sobre operações específicas, citou o recebimento de R$ 4,4 milhões como parte da venda de um imóvel, negócio declarado à Receita Federal.
Silêncio de MC Poze do Rodo
No mesmo inquérito, Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze do Rodo, optou por permanecer em silêncio durante o depoimento.
Contexto da operação
A operação aponta que o grupo movimentou valores em escala bilionária, usando empresas, contas de terceiros e mecanismos de fragmentação de transferências para dar aparência de legalidade aos recursos. Dados do Coaf e diálogos extraídos da nuvem vinculada ao contador Rodrigo Morgado indicam movimentações ativas até o segundo semestre de 2025, inclusive em dezembro. A investigação é um desdobramento da Operação Narco Bet, de outubro do ano passado, quando Morgado foi preso sob suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas por meio de apostas online. Investigações anteriores indicam que ele exercia papel central na engrenagem financeira do esquema, intermediando movimentações com uso de contas de terceiros, empresas e criptoativos.



