Ucrânia marca quatro anos de conflito com cenário transformado por tecnologia de drones
Este mês completa quatro anos desde o início da invasão em larga escala da Rússia na Ucrânia, e um cessar-fogo genuíno ainda parece distante. Em Donetsk, no leste do país, a realidade do conflito se manifesta através de redes protetoras que se estendem por quilômetros sobre estradas, suspensas em postes de madeira de aproximadamente seis metros de altura. Essas barreiras, doadas por pescadores europeus — incluindo 280 toneladas recentemente enviadas pela Escócia —, servem como defesa barata e eficaz contra drones explosivos.
A nova face da guerra: drones FPV e a 'zona de morte'
As três letras mais temidas no campo de batalha atual são FPV (first-person view, ou visão em primeira pessoa). Esses drones, equipados com câmeras que transmitem informações a operadores localizados a dezenas de quilômetros de distância, estão entre os principais responsáveis por mortes tanto do lado ucraniano quanto russo. Centros de comando escondidos em porões de prédios destruídos abrigam fileiras de telas que analisam dados em tempo real, orientando soldados em terra através de rádios e codinomes.
A evolução tecnológica é marcante: enquanto versões iniciais eram controladas por sinais de rádio — rapidamente bloqueados por guerra eletrônica —, a maioria atual utiliza cabos de fibra óptica tão finos que um carretel de 25 quilômetros cabe em compartimento do tamanho de uma garrafa grande. Essa transformação alterou fundamentalmente a natureza do conflito, expandindo a estreita linha de frente tradicional para uma ampla kill zone (zona de morte) que pode alcançar cerca de 20 quilômetros para cada lado a partir das posições avançadas.
Áreas de retaguarda antes consideradas relativamente seguras tornaram-se tão letais quanto a antiga linha de frente, com céus saturados de drones de vigilância que tornam qualquer deslocamento extremamente perigoso. Redes sociais estão repletas de vídeos impactantes onde drones FPV mergulham sobre alvos, perseguindo indivíduos em campo aberto ou até entrando em prédios através de salas e portas.
Estratégias inovadoras e custos assimétricos
A inovação constante caracteriza esta guerra de drones, onde ambos os lados buscam vantagem tecnológica. Ucrânia e Rússia utilizam o sistema Starlink, de Elon Musk, para comunicações e navegação no campo de batalha — embora os russos tenham sofrido revés recente quando Musk desativou terminais registrados na Rússia ativos dentro da Ucrânia. Unidades ucranianas demonstram respeito por unidades russas de elite de drones como Rubicon e Day of Judgement, reconhecendo sua proficiência.
A assimetria de custos é impressionante: um drone de aproximadamente US$ 1 mil pode, nas mãos de operador habilidoso, destruir tanque avaliado em US$ 30 milhões. O impacto estratégico ficou evidente quando pequeno grupo de operadores ucranianos foi convidado a enfrentar forças da Otan em exercício na Estônia, demonstrando que a aliança ainda precisa recuperar terreno nesta nova modalidade de combate.
Donetsk: cenário de resistência e sofrimento civil
Em Slovyansk, cidade designada como 'cidade-fortaleza' e protegida por quilômetros de fossos antitanque e obstáculos de concreto, a vida continua precariamente. Milhares de moradores se mudaram para locais mais seguros, enquanto os que permanecem enfrentam temor constante de drones FPV russos, apressando-se por ruas geladas para concluir tarefas e retornar a casa com vida. Redes protetoras estão sendo instaladas até no centro urbano.
Slovyansk está no topo da lista de exigências do presidente russo Vladimir Putin para cessar-fogo, que inclui entrega de aproximadamente 20% de Donetsk ainda controlado pela Ucrânia, além de áreas nas regiões de Zaporizhzhia e Kherson. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky enfrenta pressões tanto russas quanto americanas — incluindo do presidente Donald Trump, que busca acordo antes das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA em novembro.
Zelensky, porém, mantém posição firme: "Jamais poderia abrir mão de territórios que a Rússia não conseguiu capturar", afirmou em encontro recente em Kiev. Segundo seus cálculos, em até dois anos as forças russas estariam rearmadas e Putin ordenaria novo ataque, tornando qualquer concessão territorial ineficaz a longo prazo.
Testemunhos da resistência civil
Oleh Tkachenko, pastor de meia-idade que montou operação humanitária notável em Slovyansk, produz 17 mil unidades de pão semanalmente em padaria restabelecida com ajuda do Programa Mundial de Alimentos da ONU. Ele viaja a áreas perigosas para entregar alimentos e trazer moradores que decidem deixar região próxima à linha de frente. "A situação mudou radicalmente", afirma. "Existem apenas lugares muito perigosos e relativamente perigosos. Já não há nenhum lugar seguro na região de Donetsk."
Quando questionado sobre possível cessão territorial, Tkachenko responde com paixão: "O que mais Putin quer? Esta é a minha região de Donetsk. Eu nasci aqui. Meus filhos nasceram aqui. Construí minha família aqui. E eu deveria deixar tudo isso? Para quê?" Ele argumenta que permitir que Putin tome e mantenha território não pertencente à Rússia destruiria valores fundamentais da ordem internacional.
Oleksii Yulov, que comanda organização Advis Platsdarm dedicada a recolher corpos de soldados mortos de ambos os lados, traça paralelos históricos sombrios: "As promessas feitas pela Rússia não valem nada — assim como as promessas de Hitler de que, após tomar a Região dos Sudetos, nada mais aconteceria. Todos vimos aonde isso levou: à Segunda Guerra Mundial. Agora pode levar a uma Terceira Guerra Mundial se não pararmos."
Desafios humanos e logísticos crescentes
Quatro anos de conflito exauriram energias iniciais de voluntariado e patriotismo, substituindo-as por determinação sombria de continuar, especialmente entre soldados da linha de frente e suas famílias. Zelensky reconheceu que 55 mil soldados ucranianos foram mortos — número provavelmente muito superior —, enquanto recrutar novos combatentes tornou-se desafio significativo diante dos perigos extremos da ampliada 'zona de morte'.
Valeriy Puzik, autor e poeta que se voluntariou para lutar e sobreviveu a mais de 100 dias em trincheira de seis metros de profundidade, explica a dificuldade de recrutamento: "Porque quando alguém deixa uma posição, eles não dizem nada de positivo. E o boca a boca causa o maior dano. Porque não há nada de positivo ali." Ele acredita que evacuar companheiros feridos salvou sua vida quando sua antiga posição foi atacada posteriormente.
Deslocamento em massa e infraestrutura destruída
Diariamente, ônibus cruzam fronteira regional transportando civis evacuados de áreas como Druzhkivka, cidade absorvida pela 'kill zone'. Em centro de coordenação humanitária em Lozova, famílias deslocadas aguardam documentação cercadas por poucas malas e animais de estimação, atormentadas pela perda. Viktoria, que deixou Druzhkivka com marido Serhii e filha adolescente Diana, descreve situação extrema: "Estamos no limite. Não tínhamos gás, água e nem eletricidade. Sem aquecimento. Ficamos lá até o último momento, congelando por três dias."
Serhii, com aparência envelhecida antes do tempo, resume tragédia pessoal: "É muito difícil. Abandonamos tudo pelo que trabalhamos a vida inteira. Tudo o que construímos para nossas famílias, tudo o que estávamos erguendo. E tivemos que deixar tudo isso em um instante."
A infraestrutura energética sofre ataques concentrados, com usinas da era soviética — que fornecem água quente e aquecimento a bairros inteiros — sendo duramente atingidas por mísseis e drones russos. Em ruínas de uma instalação não identificável por questões de segurança, trabalhadores retiram aço dos escombros sob temperaturas muito abaixo de zero. Reparos são impossíveis; reconstrução completa seria necessária.
Negociações e perspectivas futuras
Negociações mediadas por enviados de Donald Trump — seu genro Jared Kushner e amigo bilionário Steve Witkoff — continuam, com encontro previsto em Genebra após aniversário da invasão. Porém, é difícil vislumbrar cessar-fogo sem que Putin ou Zelensky alterem posições fundamentais, especialmente quando ambos acreditam que ainda podem lutar até alcançar algum tipo de vitória.
A Ucrânia mantém postura desafiadora, sem sensação de derrota iminente. Grandes cidades funcionam relativamente bem apesar dos ataques à rede energética, com Kiev apresentando congestionamentos, lojas abastecidas e estabelecimentos abertos — ainda que interrompidos por sirenes de ataque aéreo e relatos trágicos de civis mortos dentro de próprias casas.
O país reconstrói complexo industrial-militar da era soviética com foco em ataques de longo alcance, enquanto Zelensky expressa confiança na vitória desde que receba níveis crescentes de apoio europeu. Encarregado em usina energética destruída resume atitude comum quando questionado sobre motivação dos ataques russos: "Eles querem nos fazer ajoelhar. Querem colocar a Ucrânia de joelhos." A determinação de impedir que isso aconteça explica por que, quatro anos após invasão em larga escala, a guerra continua sem perspectivas claras de término.



