Trump traça paralelo entre Venezuela e Irã, mas especialistas alertam para diferenças fundamentais
O presidente americano, Donald Trump, sugeriu que o resultado da guerra contra o Irã poderia se assemelhar ao alcançado na Venezuela, onde a captura do ex-presidente Nicolás Maduro abriu caminho para uma nova etapa de cooperação. No entanto, especialistas apontam que replicar essa estratégia no cenário iraniano apresenta desafios monumentais devido a diferenças estruturais profundas.
Estratégia venezuelana: eliminação e cooperação
Em Caracas, as forças especiais dos EUA executaram uma incursão rápida e limitada no início de janeiro, capturando Maduro e transferindo-o para Nova York para enfrentar acusações criminais. A então vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o poder interinamente, e as instituições estatais continuaram funcionando normalmente, estabelecendo uma relação política e comercial favorável aos Estados Unidos.
"Tenho que estar envolvido em sua nomeação, como com Delcy na Venezuela", declarou Trump nesta quinta-feira (5/3), referindo-se à possibilidade de surgimento de um novo líder cooperativo no Irã.
Desafios iranianos: população, exército e complexidade
O analista iraniano-americano Sina Toosi, pesquisador do Center for International Policy, explica que a estratégia venezuelana não é realista para o Irã. Enquanto a Venezuela tem aproximadamente 28 milhões de habitantes, o Irã conta com cerca de 92 milhões, além de um Exército mais poderoso e uma elite clerical fundamentalista.
"Na Venezuela, os americanos eliminaram a principal figura e chegaram a um acordo com o restante do regime, enquanto no caso iraniano acabaram com Khamenei, mas o restante do regime continua no poder", afirma Toosi em entrevista à BBC News Mundo.
Arquitetura política resiliente
O sistema político iraniano foi concebido após a Revolução Islâmica de 1979 para garantir continuidade mesmo com a eliminação de seus principais líderes. O poder se distribui entre instituições religiosas, órgãos eleitos e estruturas militares como a Guarda Revolucionária Islâmica.
"Mudar essa estrutura não consiste apenas em matar Khamenei ou bombardear instalações. Vai exigir tropas no terreno e enormes esforços de mudança de regime", prevê o especialista.
Diversidade social e geopolítica
Enquanto a Venezuela é relativamente homogênea, o Irã apresenta maior complexidade social com diferentes minorias étnicas concentradas em regiões fronteiriças. Essa diversidade introduz riscos adicionais em qualquer tentativa de transição política.
Geopoliticamente, o Irã é um ator central no Oriente Médio com uma rede de aliados e milícias em diferentes países, ampliando o alcance do conflito atual. Sua posição estratégica no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do transporte mundial de petróleo, aumenta sua importância global.
Fator Israel e perspectivas futuras
Outra diferença crucial é o envolvimento de Israel, cujo governo pretende pôr fim ao regime dos aiatolás, diferentemente da possível abertura americana a acordos. Toosi avalia que o lobby israelense exerce enorme influência sobre o governo dos EUA, marcando "outra diferença muito importante em relação ao caso da Venezuela".
O especialista conclui que o Irã "poderia caminhar para um cenário de guerra civil ou de colapso" se o conflito persistir, com repercussões regionais e globais significativas devido à sua posição geográfica estratégica no cruzamento entre Ásia, África e Europa.
