Soldados russos denunciam execuções de colegas por comandantes na guerra da Ucrânia
Em um relato chocante e inédito, quatro soldados russos que atuaram na linha de frente da guerra na Ucrânia revelaram à BBC ter presenciado comandantes ordenando a execução de colegas de tropa que se recusavam a cumprir ordens. Os depoimentos, gravados em um local secreto fora da Rússia, expõem uma brutalidade sistemática e violações graves da lei militar.
Execuções sumárias e o termo 'zerar'
Dois dos soldados afirmaram ter visto companheiros serem mortos a tiros por seus próprios comandantes. Ilya, de 35 anos, relatou ter presenciado quatro homens serem baleados à queima-roupa em Donetsk por terem fugido da linha de frente. "Eu os conhecia. Lembro de um gritar 'Não atire, eu faço qualquer coisa!', mas ele [o comandante] os zerou assim mesmo", contou. O termo "zerar" é uma gíria militar russa para executar soldados da própria tropa.
Dima, de 34 anos, descreveu ter visto um colega ser executado por ordem direta de seu comandante, Alexei Ksenofontov, que foi declarado "Herói da Rússia" em 2024. "Vi isso a apenas dois metros. Clique, estalo, tiro. Não é drama, não é filme, é a vida real", afirmou. Dima também relatou ter encontrado 20 corpos em uma vala, todos executados e com seus cartões bancários confiscados.
Táticas suicidas e torturas
Os homens detalharam as chamadas "meat storms" (tempestades de carne), ondas sucessivas de soldados enviados desarmados ou mal equipados para desgastar as defesas ucranianas. Denis, de 27 anos, explicou: "Você envia três homens, depois mais três. Não deu certo, manda dez. Não deu certo com dez, manda 50". Segundo estimativas do Ministério da Defesa do Reino Unido, entre 900 e 1.500 russos são mortos ou feridos diariamente na Ucrânia.
Aqueles que se recusam a participar enfrentam torturas brutais. Ilya contou que, após se negar a ir para uma "tempestade de carne", foi amarrado a uma árvore, espancado e humilhado com urina. "O comandante disse a todos: 'Temos um novo banheiro'". Ele tentou suicídio depois. Denis perdeu dois dentes arrancados por um superior por se recusar a procurar um drone.
Contexto de repressão e números alarmantes
Os quatro soldados estão foragidos, já que quase toda oposição pública à invasão foi sufocada na Rússia. Moscou não divulga baixas oficiais, mas o Reino Unido estima que mais de 1,2 milhão de militares russos foram mortos ou feridos desde fevereiro de 2022. O governo russo respondeu que suas forças "operam com máxima contenção" e que quaisquer alegações são investigadas, mas não confirmou os relatos.
Os depoimentos corroboram cartas de familiares enviadas a Vladimir Putin em janeiro de 2025, pedindo investigações sobre brutalidade em unidades comandadas por Ksenofontov. "Eles continuam a exterminar nossos homens! Sentindo-se impunes!", dizia o texto.
Consequências psicológicas e um apelo
Os homens carregam traumas profundos. Dima descreve pesadelos com "florestas cheias de cadáveres" e cheiros de sangue. "Meu crime é apenas não querer matar", refletiu. Ilya, que antes da guerra ensinava crianças com autismo, declarou: "Amo meu país, mas não o que Putin fez com ele. Eles podem quebrar qualquer um".
Este é o primeiro relato em vídeo de soldados russos da linha de frente descrevendo execuções ordenadas por comandantes, conforme análise da BBC. Os detalhes revelam um cenário de violência extrema e desrespeito à vida dentro das próprias tropas russas.
