Paquistão ataca Afeganistão e declara 'guerra aberta' após escalada de tensão na fronteira
O Paquistão realizou, na madrugada desta sexta-feira (27), ataques aéreos contra o Afeganistão e declarou formalmente uma "guerra aberta" contra o país vizinho. A ação militar ocorre após semanas de tensão crescente entre as nações, com trocas de tiros na fronteira e acusações mútuas sobre o abrigo de grupos militantes.
Contexto do conflito: o papel do TTP
A tensão gira em torno do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), conhecido como Talibã do Paquistão, um grupo extremista que mantém uma insurgência armada contra o Estado paquistanês desde 2007. O TTP busca derrubar o governo e implantar um regime rígido baseado na sharia, a lei islâmica.
O governo paquistanês afirma que os líderes do TTP e grande parte de seus integrantes operam a partir do Afeganistão, organizando ataques contra o Paquistão. Islamabad também acusa o país vizinho de servir de refúgio para separatistas na província de Baluchistão, no sudoeste paquistanês. O governo afegão, por sua vez, nega veementemente essas acusações.
Histórico de violência e relações complexas
O TTP ganhou notoriedade internacional após reivindicar o atentado contra a estudante Malala Yousafzai, baleada em 2012 por defender o direito de meninas à educação. Ela sobreviveu e se tornou um símbolo global da luta pelo acesso à escola.
Historicamente, o Paquistão foi o aliado mais próximo do Talibã afegão, ajudando a dar origem ao regime no início dos anos 1990. No entanto, desde que o Talibã retomou o poder no Afeganistão em 2021, as relações entre os dois países se deterioraram significativamente.
"O que deu errado entre os dois países, creio eu, tem muito a ver com o fato de ter havido um aumento acentuado da violência militante no Paquistão desde que o Talibã afegão chegou ao poder", destacou a pesquisadora Farzana Shaikh à agência Reuters.
Escalada recente de violência
Nos últimos meses, o TTP intensificou seus ataques no Paquistão. No início deste mês, um atentado suicida a uma mesquita xiita em Islamabad deixou 31 mortos e 130 feridos. Em novembro, outro ataque suicida em frente a um tribunal na capital resultou em 12 mortos e 27 feridos.
Autoridades paquistanesas afirmam que a atividade do TTP aumentou desde a volta do Talibã ao poder no Afeganistão. O país enfrenta uma nova onda de atentados, especialmente em regiões próximas à fronteira.
Operações militares e retaliações
No fim de semana passado, o Paquistão realizou bombardeios contra acampamentos de militantes do TTP e do Estado Islâmico no Afeganistão. O Talibã, que governa o Afeganistão, respondeu que daria uma "resposta apropriada e proporcional" aos ataques.
A operação afegã de retaliação ocorreu na quinta-feira (26), antecedendo os ataques paquistaneses desta sexta-feira. A crise elevou a tensão diplomática e militar entre os dois países, com operações aéreas e troca de acusações públicas.
Implicações regionais e análise
Para o governo paquistanês, a presença de supostos santuários do TTP além da fronteira representa uma ameaça direta à segurança nacional. Analistas apontam que o avanço do grupo reforça um cenário já delicado, onde militância armada, disputas fronteiriças e fragilidade econômica se combinam, tornando mais difícil qualquer tentativa de pacificação duradoura.
A aproximação diplomática do Afeganistão com a Índia, que começou com o envio de ajuda humanitária em 2022 e culminou com anúncios de parcerias em outubro de 2025, também não é vista com bons olhos pelo Paquistão, contribuindo para o agravamento das tensões.
O conflito entre Paquistão e Afeganistão representa um risco significativo de instabilidade regional, com potencial para escalar ainda mais caso não haja mediação internacional ou diálogo diplomático entre as partes envolvidas.



