Investigação preliminar aponta responsabilidade dos EUA em ataque que matou 175 pessoas em escola iraniana
Duas semanas após o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, a comunidade internacional continua cobrando explicações sobre o bombardeio que atingiu a escola Shajareh Tayyebeh, localizada em Minab, no sul do território iraniano. O ataque, ocorrido em 28 de fevereiro, resultou na morte de 175 pessoas, sendo que 150 das vítimas eram crianças, conforme afirmou o embaixador do Irã na ONU em Genebra.
Detalhes do ataque e localização da escola
O bombardeio aconteceu por volta das 10h45 no horário local, atingindo a cidade de Minab com extrema violência. A escola Shajareh Tayyebeh ficava adjacente a uma base da Guarda Revolucionária do Irã, força militar subordinada ao líder supremo do país. Segundo informações da Reuters, a instituição de ensino integrava uma rede ligada à corporação militar, especificamente o Instituto Educacional Cultural Mártires do Golfo Pérsico.
Imagens verificadas pelo jornal The New York Times mostram que a região foi atingida por um míssil Tomahawk, arma de precisão comumente utilizada pelas forças armadas dos Estados Unidos. Este é um ponto crucial, pois tanto o Irã quanto Israel não operam esse tipo específico de míssil.
Número de vítimas e perfil dos mortos
O Crescente Vermelho iraniano confirmou o número de 175 mortos, enquanto órgãos das Nações Unidas, incluindo Unicef e Conselho de Direitos Humanos, também passaram a citar esse total. Entre as vítimas estavam estudantes com idades entre 6 e 12 anos, além de funcionários da escola e pais de alunos que se encontravam no local durante o ataque.
A imprensa estatal iraniana divulgou uma lista com 56 nomes e fotografias das vítimas. A BBC reportou que 48 dessas crianças tinham entre 6 e 11 anos. A imagem do menino Mikaeil Mirdoraghi, descrito como aluno da escola, tornou-se símbolo da tragédia após circular nas redes sociais.
Evidências que apontam para os Estados Unidos
Investigações conduzidas pela imprensa internacional revelaram evidências consistentes que indicam a responsabilidade americana no ataque. O New York Times publicou reportagem detalhando que imagens do bombardeio mostram um míssil dos Estados Unidos caindo próximo à escola de Minab.
Mais significativamente, a agência Reuters revelou que uma investigação preliminar conduzida pelas próprias autoridades militares americanas apontou que forças dos EUA provavelmente foram responsáveis pelo ataque que atingiu a escola. O New York Times complementou essa informação, relatando que o bombardeio teria resultado de um erro de direcionamento baseado em dados desatualizados fornecidos pela inteligência americana.
Declarações contraditórias de Donald Trump
Inicialmente, o presidente americano Donald Trump sugeriu que o Irã poderia ter sido responsável pelo ataque, alegando que o país seria "muito impreciso com suas munições". Chegou a insinuar que os iranianos possuiriam mísseis Tomahawk, afirmação considerada improvável por especialistas em armamentos.
Posteriormente, diante das evidências crescentes, Trump amenizou seu discurso e afirmou que o governo americano apuraria o ocorrido. "Seja qual for o resultado do relatório, estou disposto a aceitá-lo", declarou o presidente, em sinal de que estaria inclinado a aceitar as conclusões preliminares da investigação.
Pressão política interna e internacional
O caso gerou intensa pressão sobre a administração Trump. Parlamentares democratas, da oposição ao presidente, acusaram o secretário de Guerra, Pete Hegseth, de ignorar riscos para civis em operações militares e exigiram uma investigação rápida e transparente sobre o bombardeio.
Organismos internacionais também se manifestaram. O escritório de direitos humanos da Organização das Nações Unidas pediu uma investigação "rápida, imparcial e minuciosa" sobre as circunstâncias do ataque. A porta-voz do órgão, Ravina Shamdasani, descreveu as imagens do bombardeio como mostrando "a essência da destruição, do desespero, da falta de sentido e da crueldade deste conflito".
Possível classificação como crime de guerra
Especialistas em direito internacional analisam se o ataque pode ser configurado como crime de guerra. Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais, explica que escolas são alvos civis protegidos pelo Direito Internacional Humanitário, mas podem perder esse status se abrigarem tropas ou funcionarem como centros de comando militar.
"É preciso analisar a intenção e o grau de imprudência envolvidos na decisão de atacar", afirma Fancelli. "Para que haja responsabilização, seria necessário provar que o bombardeio contra a escola foi intencional ou que o ataque à base militar foi desproporcional, causando número elevado de mortes entre civis."
O especialista ressalta, no entanto, que mesmo que o ataque seja classificado como crime de guerra, é improvável que os Estados Unidos enfrentem punições internacionais, já que nem os EUA nem o Irã fazem parte do Tribunal Penal Internacional. A única forma de intervenção do tribunal seria através de pedido do Conselho de Segurança da ONU, algo que os Estados Unidos poderiam vetar como membro permanente do órgão.
Internamente, autoridades americanas poderiam investigar e punir eventuais responsáveis caso haja entendimento por parte das instituições do país sobre negligência ou falhas no planejamento da operação militar.
