Ataques militares causam danos a locais históricos iranianos e mobilizam agência da ONU
Os recentes ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã resultaram em danos significativos a pelo menos quatro importantes locais culturais e históricos, incluindo palácios da era Qajar e uma antiga mesquita. Este episódio tem gerado profunda preocupação internacional sobre o impacto devastador que conflitos armados em expansão podem ter sobre patrimônios protegidos, que são fundamentais tanto para a identidade nacional iraniana quanto para a história mundial.
Danos confirmados em sítios de valor inestimável
Diante da rapidez e da extensão dos estragos, o Irã e o Líbano solicitaram formalmente à UNESCO, a agência cultural das Nações Unidas, que inclua mais locais em sua lista de proteção reforçada. A organização confirmou oficialmente os danos ao Palácio Golestan, um luxuoso complexo da era Qajar situado em Teerã. Imagens registradas pela Associated Press no dia 3 de março de 2026 revelam cenas de destruição no local: vidros quebrados dos tetos espelhados cobrem o chão, arcos estão danificados, janelas foram destruídas e molduras encontram-se espalhadas abaixo das paredes decoradas com intrincados mosaicos de vidro.
Além disso, a UNESCO verificou estragos no Chehel Sotoun, um pavilhão do século XVII, e na Masjed-e Jāme, considerada a mesquita de oração de sexta-feira mais antiga do país — ambos localizados na cidade histórica de Isfahan. Danos também foram registrados em construções próximas ao Vale de Khorramabad, uma área que abriga cinco cavernas pré-históricas e um abrigo rochoso com evidências de presença humana datando de aproximadamente 63 mil anos antes de Cristo.
Proteção internacional e o contexto dos conflitos modernos
A UNESCO afirmou que havia fornecido previamente a todas as partes envolvidas no conflito as coordenadas geográficas exatas dos patrimônios culturais, com o objetivo de que tomassem "todas as precauções possíveis" para evitar danos. No entanto, o impacto em locais históricos não se limita ao Irã. A agência também monitora ativamente danos em outros pontos do Oriente Médio, como a White City em Israel e a cidade de Tiro, no Líbano.
A destruição de patrimônios culturais tem sido um triste padrão recorrente em guerras das últimas décadas. Conflitos como a guerra entre Rússia e Ucrânia e os embates entre Israel e o grupo Hamas já resultaram na danificação ou destruição completa de dezenas de locais históricos. Stephane Dujarric, porta-voz da ONU, destacou que os conflitos modernos provocam impactos amplos e devastadores. "É claro para todos: nesses conflitos cada vez mais modernos, são os civis que pagam o preço, é a infraestrutura civil que paga o preço, e todos vimos a destruição de patrimônios históricos inestimáveis", declarou.
Consequências humanas e identitárias da destruição
Defensores de direitos humanos alertam que a guerra no Irã, que já deixou mais de mil mortos, também abalou profundamente instituições e lugares históricos vitais para as comunidades. Bonnie Docherty, pesquisadora da divisão de armas da Human Rights Watch, explica que a destruição desses locais afeta diretamente a população civil. "Isso causa danos aos civis porque destrói ou danifica uma parte da história deles, que pode ser significativa tanto para o mundo quanto para uma comunidade específica", afirmou. "Também enfraquece a identidade compartilhada de uma comunidade local."
O analista político Arash Azizi, que cresceu no Irã, reforça a importância cultural desses locais. "Quando crianças são mortas e vidas humanas estão em risco, algumas pessoas podem pensar: 'o que importa alguns azulejos ou vidros quebrados?'", pondera. "Mas essa é a atitude errada. Precisamos de um contexto cultural. Precisamos saber quem somos, de onde viemos e o que tudo isso significa."
Impacto pessoal e respostas oficiais
Para muitos, os danos têm um significado profundamente pessoal. Shabnam Emdadi, uma iraniana-americana de 35 anos, visitou o Palácio Chehel Sotoun com seu pai pouco antes de sua morte. "As viagens ao Irã com ele são minhas lembranças mais queridas", compartilha. "Por isso, quando vejo os danos a esses lugares que fazem parte das minhas memórias, sinto como se também estivesse perdendo um pedaço dele."
Ainda não está totalmente claro se os danos foram causados especificamente por ataques dos Estados Unidos ou de Israel. O Pentágono não comentou o assunto, e as Forças de Defesa de Israel declararam não ter conhecimento das alegações. Especialistas destacaram declarações recentes do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que afirmou que a estratégia americana na guerra não incluiria "regras de engajamento estúpidas". Patty Gerstenblith, presidente do U.S. Committee of the Blue Shield, rebate que essas regras são justamente as que incorporam o direito humanitário internacional, protegendo não apenas o patrimônio cultural, mas também a população civil e estruturas essenciais como hospitais e escolas.
O papel crucial da UNESCO e os desafios futuros
Os locais afetados integram um grupo de cerca de 30 patrimônios iranianos listados pela UNESCO como áreas de proteção especial dentro do programa de Patrimônio Mundial. Este programa, que também inclui marcos como a Grande Muralha da China e as Pirâmides do Egito, avalia anualmente locais de "valor excepcional para a humanidade" e intervém quando esses patrimônios correm risco. Além disso, oferece assistência técnica e treinamento profissional para auxiliar países na preservação.
Contudo, o cenário político apresenta obstáculos. O governo do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou em julho do ano passado a intenção de retirar novamente o país da UNESCO, como parte de um distanciamento de organizações internacionais. A decisão, que cita acusações de discurso anti-Israel dentro da agência, deve entrar em vigor em dezembro, potencialmente enfraquecendo os mecanismos globais de proteção cultural em um momento de crescente necessidade.
