Agência nuclear identifica estoque de urânio altamente enriquecido em túneis subterrâneos do Irã
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) divulgou um relatório confidencial aos seus 35 Estados-membros revelando que o Irã estocou parte de seu urânio altamente enriquecido em uma área subterrânea do complexo nuclear de Isfahan, no centro do país. Esta é a primeira vez que o órgão vinculado à ONU especifica o local exato onde o material com grau de pureza de até 60% está sendo guardado.
Patamar técnico próximo do militar
O nível de enriquecimento de 60% está tecnicamente muito próximo dos 90% considerados necessários para a produção de uma arma nuclear. Segundo estimativas anteriores da agência, antes dos bombardeios realizados em junho por Estados Unidos e Israel, o Irã possuía cerca de 440 quilos de urânio enriquecido nesse patamar.
Esse volume, se levado ao grau militar, poderia ser suficiente para a fabricação de até dez artefatos nucleares, de acordo com parâmetros técnicos da própria AIEA. O documento foi distribuído às vésperas da reunião trimestral do Conselho de Governadores da agência, reforçando a pressão internacional sobre o programa nuclear iraniano.
Impasses nas negociações e restrições de acesso
As revelações ocorrem num momento em que as negociações entre Washington e Teerã atravessam novo impasse, com a rodada mais recente de conversas terminando sem avanços concretos. De acordo com diplomatas ouvidos por agências internacionais, a entrada do complexo de túneis em Isfahan foi atingida durante os ataques de junho, mas imagens de satélite analisadas pela AIEA indicam que a estrutura subterrânea não sofreu danos significativos.
O relatório menciona "atividade veicular regular" nas imediações da instalação, onde também teriam sido armazenadas quantidades de urânio enriquecido a 20%. A agência voltou a cobrar acesso "indispensável e urgente" a todas as instalações nucleares iranianas.
Preocupações com transparência e verificação
Desde os bombardeios, o governo de Teerã restringiu a atuação de inspetores internacionais e não detalhou oficialmente o destino do estoque mais sensível. Para a AIEA, a retomada plena das inspeções é condição central para restaurar a confiança no regime de salvaguardas.
O relatório também cita preocupação com uma quarta instalação de enriquecimento anunciada pelo Irã pouco antes da ofensiva israelense do ano passado. Até o momento, segundo a agência, o país não forneceu informações técnicas suficientes nem autorizou inspeções no local, cuja localização exata permanece incerta.
Contexto histórico e tensões regionais
A tensão em torno do programa nuclear iraniano se intensificou após a erosão do acordo firmado em 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global, que impunha limites rígidos ao enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções. Desde a saída unilateral dos Estados Unidos do pacto, durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Irã ampliou progressivamente seus níveis de enriquecimento e reduziu a cooperação com inspetores internacionais.
Autoridades americanas e europeias sustentam que a atual capacidade técnica iraniana encurta de forma significativa o chamado "tempo de ruptura" - intervalo necessário para produzir material físsil suficiente para uma bomba. Teerã, por sua vez, afirma que seu programa tem fins exclusivamente pacíficos e que o enriquecimento a 60% responde a necessidades energéticas e médicas.
Implicações diplomáticas e estratégicas
O novo relatório da AIEA poderá municiar Washington em sua argumentação de que o Irã não tem sido transparente. Integrantes do governo americano defendem que qualquer avanço diplomático deve incluir não apenas limites ao enriquecimento, mas também mecanismos de verificação reforçados e acesso irrestrito às instalações sensíveis.
Especialistas em não proliferação avaliam que a confirmação do armazenamento subterrâneo em Isfahan indica uma estratégia de dispersão e proteção do material nuclear, reduzindo sua vulnerabilidade a ataques aéreos. Ao mesmo tempo, a permanência de estoques significativos após os bombardeios sugere que a campanha militar não foi capaz de eliminar os principais ativos do programa.
A próxima reunião do Conselho de Governadores da AIEA deverá discutir possíveis resoluções formais contra o Irã. Uma condenação poderia abrir caminho para o reencaminhamento do caso ao Conselho de Segurança da ONU, ampliando o risco de novas sanções e de escalada diplomática.
No pano de fundo, o impasse nuclear se soma a um ambiente regional já marcado por confrontos indiretos e ameaças cruzadas entre Irã e Israel, mantendo a tensão no Oriente Médio em níveis elevados.



