Manifestação histórica interdita rodovia federal por três dias consecutivos no interior acreano
Cerca de 50 moradores de Feijó, município localizado no interior do Acre, mantiveram o trecho da BR-364 completamente fechado por três dias seguidos durante um protesto organizado para cobrar melhorias na saúde pública e a conclusão das obras do Hospital Geral da cidade. A rodovia federal foi finalmente liberada no quilômetro 490 no fim da tarde de domingo (22), após intensas negociações conduzidas pela Polícia Rodoviária Federal com os manifestantes.
Bloqueio total com exceções apenas para veículos prioritários
Durante os 72 horas de interdição completa da via, apenas ambulâncias e caminhões transportando carga viva tinham autorização para passar pelo trecho bloqueado. Os demais motoristas que precisavam trafegar pela região enfrentaram esperas que chegavam a até quatro horas para conseguir seguir viagem, causando transtornos significativos no fluxo de transporte regional.
A situação permaneceu controlada durante todo o período do protesto, conforme informou a PRF, com liberações periódicas sendo realizadas estrategicamente para evitar desabastecimento das comunidades locais e garantir o transporte seguro de pacientes que necessitavam de atendimento médico urgente.
Governo do Acre anuncia previsão de entrega para abril
Em resposta às demandas dos manifestantes, a Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) e a Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) emitiram uma nota oficial nesta segunda-feira (23) informando que o primeiro bloco da nova unidade hospitalar será entregue até o mês de abril deste ano. O comunicado governamental destacou que a obra representa um investimento superior a R$ 5 milhões, com recursos provenientes tanto do estado quanto da União.
"É fundamental esclarecer que estes recursos não são oriundos de emendas federais", afirmou o governo em sua nota, explicando ainda que os valores foram destinados ao estado em 2013 através do Ministério da Saúde, mas enfrentaram entraves burocráticos e desafios contratuais que só foram solucionados nos últimos três anos.
Contexto de insatisfação com a saúde pública local
A mobilização popular foi motivada por uma série de denúncias de negligência médica e pela demanda urgente por reformas e conclusão da nova estrutura do hospital municipal. Segundo os manifestantes, a unidade de saúde enfrenta problemas estruturais graves e dificuldades crônicas no atendimento à população de Feijó e região.
A insatisfação com os serviços de saúde em Feijó ganhou contornos dramáticos em casos recentes que chamaram atenção nacional:
- Em janeiro de 2024, a família de Maria Daiane Souza da Silva, de 25 anos, acusou a equipe médica da maternidade do hospital de negligência após a morte da jovem, que sofreu hemorragia e parada cardíaca durante uma cesariana
- Em fevereiro do mesmo ano, o Ministério Público do Acre abriu procedimento para apurar possível falha do hospital após a unidade se recusar a realizar aborto em uma gestante de feto anencéfalo, contrariando entendimento do Supremo Tribunal Federal
- Em 19 de maio de 2025, a morte de Diogo Silva Albuquerque, de 12 anos, também gerou questionamentos, com a família acusando a unidade de negligência no tratamento do adolescente que faleceu de sepse associada a celulite
Compromisso público e críticas ao processo político
Em sua nota oficial, o governo do Acre reafirmou seu compromisso com a conclusão da obra hospitalar, destacando que a nova unidade ampliará significativamente a capacidade de atendimento para mais de 30 mil habitantes da região. No entanto, o comunicado também fez críticas veladas ao cenário político, afirmando que "é lamentável que o processo eleitoral de 2026 contamine a execução de uma obra vital".
O texto governamental finalizou reafirmando a prioridade em consolidar uma saúde pública estruturada, moderna e funcional em todos os municípios acreanos, garantindo ambientes adequados para os profissionais da área e assegurando atendimento digno e humanizado para toda a população.