ENAMED expõe fragilidade na formação médica brasileira
O Ministério da Educação divulgou nesta semana os resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, conhecido como Enamed. Os dados revelam uma situação preocupante: dos 351 cursos analisados, 107 receberam notas consideradas abaixo do ideal, o que representa mais de 30% das faculdades de medicina reprovadas na avaliação.
Expansão desenfreada e qualidade questionada
As piores avaliações foram registradas principalmente em cursos de instituições públicas municipais e de instituições privadas com fins lucrativos. Este resultado coloca em xeque a expansão acelerada de cursos de medicina no Brasil, que na última década abriu mais de 2.500 novas vagas por ano, em média. Atualmente, o país conta com 494 faculdades de medicina em funcionamento, um número que só é superado pela Índia, o país mais populoso do mundo.
Especialista alerta para riscos na saúde pública
Para discutir a fragilidade da formação médica no Brasil, a apresentadora Natuza Nery conversou com Ludhmila Hajjar, médica cardiologista, intensivista e professora titular de Emergências da USP. A especialista avaliou criticamente os resultados do Enamed e propôs novos modelos de avaliação para assegurar a qualidade dos estudantes de medicina.
Ludhmila Hajjar fez um alerta contundente sobre o risco de hospitais serem ocupados por médicos malformados, comparando a situação a "uma loteria com chance maior de perder". A médica enfatizou a necessidade de medidas urgentes para garantir a excelência na formação dos futuros profissionais da saúde.
Repercussão e próximos passos
O Conselho Federal de Medicina já manifestou interesse em impedir que aproximadamente 13 mil alunos de cursos mal avaliados possam atender pacientes após a graduação. Enquanto isso, entidades que representam universidades reconheceram que o Enamed está tecnicamente correto, apesar de apontarem divergências metodológicas.
Entre os cursos avaliados, 163 obtiveram as melhores classificações, demonstrando que há exemplos de excelência que podem servir de referência para todo o sistema. A divulgação completa das notas dos 351 cursos está disponível para consulta pública, permitindo maior transparência sobre a qualidade da educação médica no país.
Este episódio do podcast O Assunto foi produzido por Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sarah Resende, Luiz Felipe Silva e Carlos Catelan, com colaboração de Paula Paiva Paulo. O programa, apresentado por Natuza Nery, é o podcast diário do g1 e está disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube, somando mais de 168 milhões de downloads desde sua estreia em agosto de 2019.