Por que Setembro a Dezembro não batem com os números? Desvendando o calendário
Mistério dos meses: a origem dos nomes de Setembro a Dezembro

Você já parou para pensar por que os meses de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro têm nomes que claramente remetem aos números sete, oito, nove e dez, mas ocupam, respectivamente, as posições de nono, décimo, décimo primeiro e décimo segundo meses do ano? Essa dúvida, que intriga muitos falantes do português, foi enviada por um leitor ao professor Noslen Borges e tem uma explicação fascinante, que remonta à Antiguidade.

A Pergunta que Despertou a Curiosidade

Em sua coluna regular, o professor Noslen Borges, especialista em língua portuguesa, recebeu uma inquietação comum: por que a nomenclatura de quatro meses do ano parece "deslocada" em relação à sua ordem numérica atual? A pergunta, publicada em 6 de janeiro de 2026, revela um desses detalhes históricos que carregamos no dia a dia sem perceber.

A Chave do Enigma Está no Calendário Romano Antigo

A confusão toda se resolve quando voltamos no tempo e olhamos para o calendário usado pelos romanos. Diferente do nosso, o ano no calendário romano primitivo começava em março e era composto originalmente por apenas dez meses. Nessa estrutura inicial, a contagem era perfeitamente lógica.

Veja como funcionava a sequência:

  • Março era o primeiro mês.
  • Abril, o segundo.
  • Maio, o terceiro.
  • Junho, o quarto.
  • Julho, o quinto.
  • Agosto, o sexto.
  • Setembro (do latim "septem", que significa sete) era o sétimo.
  • Outubro (de "octo", oito) era o oitavo.
  • Novembro (de "novem", nove) era o nono.
  • Dezembro (de "decem", dez) era o décimo.

Nesse sistema, os nomes correspondiam perfeitamente à posição ordinal de cada mês. A lógica era clara e direta.

A Grande Mudança que Bagunçou a Contagem

O "problema" começou com uma reforma no calendário. Por razões políticas e administrativas, decidiu-se adicionar dois novos meses no início do ano: Janeiro e Fevereiro. Com essa alteração, o ponto de partida do ano deixou de ser março e passou a ser janeiro.

O efeito foi imediato: todos os meses que vinham depois foram "empurrados" duas posições para frente na contagem. Assim, Setembro, que era o sétimo, tornou-se o nono. Outubro, do oitavo lugar, foi para o décimo, e assim sucessivamente.

Surge então uma nova questão: por que, com essa mudança, os nomes dos meses não foram atualizados para refletir suas novas posições?

Por que os Nomes Não Foram Trocados?

A resposta é mais prática do que técnica. Os nomes já estavam profundamente enraizados na cultura e no uso cotidiano da população. Alterá-los seria uma tarefa hercúlea, causaria enorme confusão e encontraria resistência natural. Era, nas palavras do professor Noslen, "como mexer em uma marca consolidada" – ninguém quis se envolver nessa complicação.

Dessa forma, os nomes originais, carregados de sua lógica numérica antiga, permaneceram, criando a curiosa desconexão que percebemos hoje. É um belo exemplo de como a língua e os costumes são conservadores, preservando histórias do passado.

A Língua Portuguesa como Museu Vivo da História

Esse caso específico ilustra perfeitamente como a língua é um organismo vivo e histórico. Ao usarmos palavras como Setembro ou Dezembro, estamos, sem saber, invocando um sistema de contagem de tempo que vigorou há milênios, na Roma Antiga. São fósseis linguísticos que continuam totalmente ativos em nosso vocabulário.

O professor Noslen Borges reforça que descobrir essas origens muda a forma como enxergamos o mundo e a nossa própria comunicação. Ele encerra sua explicação convidando todos a um ano de muita curiosidade e aprendizado sobre a riqueza da língua portuguesa, cuja história está sempre à nossa espera, escondida em detalhes do cotidiano.

A revisão textual do material foi realizada pela professora mestra Gláucia Dissenha, assegurando a precisão do conteúdo apresentado.