Chilenos conquistam o segundo lugar no turismo estrangeiro no Brasil
A relação turística entre Brasil e Chile está vivendo seu momento mais aquecido da história. Os chilenos triplicaram o número de visitas ao território brasileiro em apenas três anos, atraídos principalmente pelas praias paradisíacas, pelo câmbio favorável e pela famosa receptividade do povo brasileiro. Enquanto isso, os brasileiros também descobriram os encantos dos picos nevados e das renomadas vinícolas chilenas, criando um fluxo bidirecional que inaugura uma nova era de integração continental.
Números que impressionam e uma mudança no ranking
Os argentinos ainda mantêm a liderança no ranking de turistas estrangeiros no Brasil, mas nenhum outro povo demonstrou um crescimento tão expressivo quanto os chilenos. Entre os anos de 2022 e 2025, as visitas chilenas ao Brasil quase triplicaram, alcançando a marca impressionante de 800 mil viajantes apenas no ano passado. Esse desempenho fez com que ultrapassassem os americanos, que historicamente ocupavam a segunda posição.
Esse fenômeno contribuiu significativamente para que o Brasil atingisse o recorde histórico de recepção de turistas estrangeiros, com 9,28 milhões de visitantes em 2025, representando um aumento de 37% em relação ao ano anterior. O câmbio favorável tem sido um fator decisivo nessa equação, tornando hospedagem, transporte e alimentação extremamente acessíveis para os visitantes do Chile.
Infraestrutura que acompanha o crescimento
A quantidade de voos entre os dois países também acompanhou essa expansão. Atualmente, quinze rotas conectam Santiago, capital do Chile, a nove capitais brasileiras diferentes, um crescimento de 50% em relação ao ano anterior. A entrada de companhias aéreas low-cost no mercado contribuiu para reduzir os preços das passagens, permitindo que viajantes adquiram bilhetes por menos de 400 reais com antecedência.
Nas praias cariocas, especialmente em Copacabana, é possível observar a influência chilena através das bandeiras do país que agora decoram barracas e quiosques. Esses estabelecimentos adaptaram seus cardápios para atender aos hábitos gastronômicos andinos, oferecendo cervejas acompanhadas de sal, limão e pimenta – a famosa michelada – e os tradicionais cachorros-quentes, agora chamados de "completos", com adição de salada de abacate e tomate.
Experiências pessoais que ilustram a tendência
Sebastián Flores, de 28 anos, visitou o Brasil pela primeira vez com sua esposa e filha e se encantou com o clima informal das areias de Copacabana. "No meu país, não posso nem sequer beber na rua", revela ele, destacando uma das liberdades que mais apreciou durante sua estadia. Já Francisco Araújo, dono de uma barraca na mesma praia, atribui praticamente toda sua receita aos turistas chilenos que formam filas de até cinquenta pessoas em seu estabelecimento.
Em Búzios, outro ponto turístico fluminense bastante procurado, o sotaque cadente dos chilenos começa a disputar espaço com a inconfundível pronúncia dos argentinos, que tradicionalmente dominam a região desde os anos 1970. Andreza Costa, gerente da agência El Chileno, testemunhou essa transformação: "Assim como ocorreu com nossos vizinhos mais próximos, eles se apaixonam por Búzios e muitos já demonstram interesse em abrir negócio próprio por aqui".
O fluxo inverso: brasileiros descobrem o Chile
Essa integração crescente também funciona na direção oposta. Dados recentes da Embratur mostram que o turismo de brasileiros no Chile bateu recorde, com aumento de 62% no fluxo entre 2023 e 2024. Nenhum outro povo atravessa a Cordilheira dos Andes com tamanho ímpeto, principalmente em busca dos picos nevados, uma atração inexistente no território brasileiro.
Henric Castro, baiano de 26 anos acostumado às temperaturas escaldantes do Nordeste, viajou a um parque próximo a Santiago exclusivamente para experimentar a neve. "Achei um ótimo custo-benefício, gastei cerca de 5 mil reais em seis dias e nem precisei cruzar o oceano para ter essa experiência", conta ele, que também visitou sofisticadas vinícolas durante sua viagem.
Uma nova era no turismo sul-americano
Para o especialista em turismo Luiz Gonzaga, essa parceria entre Brasil e Chile inaugura uma nova era no turismo ao sul do Equador. "Enfim, estamos descobrindo os encantos de nosso próprio continente", afirma o estudioso, destacando o potencial de crescimento dessa relação bilateral.
Com voos mais acessíveis, câmbio favorável e uma crescente curiosidade cultural, brasileiros e chilenos estão escrevendo um novo capítulo na história do turismo regional, superando distâncias geográficas e construindo pontes de amizade que vão muito além dos tradicionais encontros futebolísticos entre as seleções nacionais.
